“A Era da Incerteza”.

Adequada ao momento em que vivemos essa definição é também título do livro lançado em 1977 por John Kenneth Galbraith (1908 – 2006), cujo denso conteúdo gerou uma didática série de TV apresentada pelo próprio autor.

Economista, diplomata e intelectual canadense de reconhecimento internacional, Galbraith teve o mérito de debruçar-se, em seu livro, sobre uma longa linha do tempo econômica e geopolítica que desaguara nas peças do quebra-cabeças daquele mundo polarizado pela Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética vivido desde os anos 1950. Mais do que isso, a partir daqueles elementos ele esboçou variáveis e cenários possíveis para as décadas que viriam, justificando assim o título da obra.

O ambiente global de hoje é ainda mais complexo. É marcado por um multilateralismo esvaziado que tenta se reanimar, por tensões geopolíticas crescentes e muitas perguntas sem respostas.

Por isso, o desafio de pavimentar o caminho à nossa frente pressupõe a habilidade para esquadrinhar dados e informações relevantes, decodificar ambientes de mudanças e traçar diretrizes sólidas.

A consultoria PwC divulgou há poucas semanas os resultados do seu Global CEO Survey. A pesquisa anual com mais de 4,4 mil CEOs de todo o planeta visa identificar percepções daquelas lideranças em relação ao futuro.

A versão 2026 do trabalho mostra um previsível crescimento do pessimismo no Brasil e no exterior.  Os executivos dizem gastar quase metade (47%) do seu tempo em questões de horizontes inferiores a um ano, cerca de três vezes mais do que o tempo dedicado ao planejamento e ações de longo prazo (cinco anos ou mais).

O Índice Mundial de Incerteza (World Uncertainty Index) desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, monitora a frequência do termo “incerteza” e contabiliza menções positivas e negativas a partir dos consistentes relatórios da Economist Intelligence Unit (EIU) que analisam 143 países.

Os conteúdos recebem uma pontuação, gerando ao final um quadro do sentimento predominante. O resultado é que as preocupações e o pessimismo só sobem.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) faz coro com a PwC e o Índice Mundial de Incerteza de Stanford ao destacar o peso da escalada das tensões geopolíticas no curto prazo. Mas salienta que não basta aos países, cujas economias a instituição monitora, simplesmente preocuparem-se com o futuro: eles devem formular políticas que preservem ou restaurem a saúde fiscal, reduzam as incertezas internas e implementem reformas estruturais.

O ano eleitoral de 2026 atiça tentações de concessão de benesses e gestos de populismo.

É um bom momento para refletir se estamos, como país, fazendo a melhor lição de casa na gestão dos recursos existentes e na criação de planos de voo para o futuro. Afinal, essas são variáveis que afetarão a vida de milhões de brasileiros ao longo dos próximos anos.

A frase do mesmo John Kenneth Galbraith ainda ecoa: “Nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de uma pessoa quanto a falta de dinheiro”.



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