O segundo turno das eleições presidenciais em Portugal, que ocorre neste domingo (8), coloca frente a frente António José Seguro, candidato de centro-esquerda, e André Ventura, representante da direita radical e líder do partido Chega. Em entrevista ao Agora CNN, Miguel Relvas, comentarista da CNN Portugal, afirmou que esta eleição deixará marcas profundas no sistema político português.
Segundo Relvas, o primeiro turno foi bastante disputado, com três candidatos de direita contra um candidato de centro-esquerda. “O candidato da direita radical com um discurso muito anti-imigração, contra o sistema, que não é representativo de setores importantes da sociedade portuguesa e particularmente da centro-direita”, explicou sobre André Ventura.
O comentarista destacou que António José Seguro, que esteve afastado da vida política durante os últimos 10 anos, tem todas as condições para ser eleito. “Ele já sabe que vai ser presidente, sabe quando vai ser, só não sabe é por quanto”, afirmou Relvas. Para ele, mais do que definir quem será o próximo presidente, o que está em disputa neste segundo turno é a margem de vitória.
Sistema político e governabilidade
Miguel Relvas explicou que o sistema político português é semipresidencialista, onde o Presidente da República tem poderes significativos, especialmente quando não há maioria parlamentar. “Ele pode dissolver o Parlamento, e o Presidente da República é sempre aquele que tem uma popularidade política, institucional e popular muito alta”, detalhou.
O comentarista chamou atenção para o fato de que Portugal tem um governo de centro-direita que está em minoria no Parlamento. “Não tem maioria absoluta, e às vezes se entende com o Partido Socialista que é de centro-esquerda ou com o Partido Chega da direita radical”, disse, referindo-se ao partido de André Ventura.
Impacto histórico e reagrupamento político
Relvas destacou o caráter inédito desta eleição, já que desde 1986 as eleições presidenciais em Portugal não tinham um segundo turno. “Em 50 anos, as eleições presidenciais foram sempre disputadas entre um candidato do centro-esquerda e um candidato do centro-direita. Nós hoje vivemos outra realidade”, observou.
Para o comentarista, esta eleição forçará um reagrupamento político, especialmente no centro-direita. “Não será chefe da direita um representante de uma direita extrema, o mais radical”, afirmou, acrescentando que o Partido Social-Democrata, que é o partido do governo, “geriu mal este processo e pagou as consequências, não estando no segundo turno, o que é inédito na história democrática de Portugal”.
Contexto de tragédias climáticas
O pleito ocorre em meio a um momento particularmente difícil para Portugal, que enfrentou três episódios de tragédias climáticas nos últimos dias. “Tempestades muito fortes, impacto que se calcula próximo dos 10 bilhões de euros na economia portuguesa, na vida das pessoas, e isto vai levar a uma grande abstenção”, explicou Relvas.
O comentarista prevê uma abstenção na casa dos 60%, comparável apenas à registrada durante a pandemia de Covid-19, há cinco anos. Apesar disso, ele acredita que isso não afetará a representatividade de quem for eleito: “Será definida pela capacidade que tiver de agregar à sociedade e do exercício da função”.