A usina nuclear Angra 3, paralisada há quase uma década, tornou-se um dos casos mais emblemáticos de como a indecisão institucional gera custo econômico. Com cerca de 65% a 70% das obras concluídas, o projeto não produz energia, mas segue consumindo recursos, pressionando a estrutura financeira do setor elétrico e alimentando dúvidas sobre sua racionalidade econômica em um país com ampla oferta de fontes renováveis.


Mesmo após a privatização da Eletrobras, Angra 3 permanece fora de uma lógica puramente privada. A responsável pelo empreendimento, a Eletronuclear, é uma empresa de economia mista, controlada indiretamente pelo Estado por meio da ENBPar, com participação privada. Esse arranjo faz com que os custos do projeto não fiquem restritos ao balanço corporativo, recaindo sobre decisões regulatórias, renegociações financeiras e, potencialmente, sobre o
próprio sistema elétrico.


Sem operar, Angra 3 gera um custo anual estimado em cerca de R$ 1 bilhão, ligado principalmente ao serviço da dívida, à preservação de equipamentos e à manutenção do canteiro. Estudos técnicos indicam que concluir a usina exigiria investimentos adicionais da ordem de R$ 23 bilhões a R$ 24 bilhões. Já a interrupção definitiva também teria custo elevado, envolvendo indenizações contratuais, desmontagem, passivos financeiros e perda dos investimentos já realizados. Ou seja: o custo de abandonar não é desprezível e pode se aproximar, embora não necessariamente igualar, o custo da conclusão — transformando a indefinição em um fator permanente de ineficiência econômica.


Esse debate ocorre em um país cuja matriz elétrica é majoritariamente renovável, com forte presença de hidrelétricas e crescimento expressivo da geração solar, eólica e a partir da biomassa. Nesse contexto, a discussão sobre Angra 3 vai além da segurança energética e exige uma avaliação econômica mais ampla: qual o valor de uma fonte nuclear de base, com alto custo de capital e longo prazo de maturação, frente a alternativas renováveis mais rápidas, modulares e baratas?


A ausência de uma decisão final também impede uma modelagem clara de retorno econômico. Sem definição de cronograma, estrutura de financiamento, arranjo contratual ou impacto tarifário, torna-se inviável estimar taxa de retorno, risco fiscal líquido ou custo de oportunidade frente a outros investimentos em energia e infraestrutura.

O governo federal já indicou disposição de avançar. Em 2023, o Conselho Nacional de Política Energética — órgão que assessora o presidente da República na formulação da política energética — autorizou a retomada condicionada do projeto, vinculando-a à atualização de estudos econômicos. A coordenação desse processo envolve o Ministério de Minas e Energia, responsável pela política do setor, além do BNDES e da Eletronuclear. Até agora, porém, essa sinalização política não se traduziu em obras efetivas.

Há ainda uma dimensão estrutural frequentemente esquecida no debate: o combustível nuclear usado. O combustível irradiado das usinas Angra 1 e Angra 2 é armazenado no próprio complexo da CNAAA (Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto), em Angra dos Reis (RJ), principalmente em piscinas de resfriamento. O local avança na implantação de uma unidade de armazenamento a seco, solução intermediária enquanto o país não define um repositório definitivo para rejeitos radioativos.

No fim, Angra 3 permanece como um ativo em suspenso. A combinação de controle estatal, economia mista e indefinição decisória faz com que o mercado enxergue custos certos no presente, com elevada probabilidade de repercussão pública ou regulatória, em troca de benefícios possíveis no futuro, que só se materializam com decisão final, financiamento definido e execução concreta.



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