A floresta amazônica não é apenas um estoque de carbono. É uma infraestrutura climática que irriga o PIB. Um estudo recém-publicado na revista Nature Portfolio, no periódico Communications Earth & Environment (Quantifying tropical forest rainfall generation), estimou pela primeira vez, com base em modelos climáticos e dados observacionais, o valor econômico direto da chuva gerada pelas florestas tropicais. O resultado reposiciona o debate ambiental no campo da macroeconomia.

A pesquisa conclui que cada 1% de perda de floresta tropical reduz a precipitação anual em cerca de 2,4 mm nas regiões afetadas. No caso da Amazônia, a sensibilidade é ainda maior: aproximadamente 3 mm por ano para cada ponto percentual desmatado. Traduzido em termos físicos, cada metro quadrado de floresta amazônica contribui com algo próximo de 300 litros de chuva por ano.

O salto analítico ocorre quando esse fluxo hídrico é convertido em valor econômico. Utilizando como referência o valor médio da água na agricultura brasileira, os autores estimam que cada hectare de floresta amazônica gera cerca de US$ 59 (R$ 305) por ano em serviços de precipitação. Projetado para a escala da Amazônia Legal, isso implica algo em torno de US$ 19,6 bilhões anuais (cerca de R$ 100 bilhões) — com margem de incerteza relevante, mas estruturalmente elevada.

O estudo combina simulações climáticas da geração CMIP6, o principal conjunto internacional de modelos climáticos usados para simular e comparar como o sistema climático responde às emissões de gases de efeito estufa e às mudanças no uso da terra, com observações de satélite para reduzir vieses de modelagem.

Ao integrar modelos e dados empíricos, os autores reforçam a robustez estatística da relação entre cobertura florestal e regime de chuvas, deslocando o debate da esfera qualitativa para a quantificação econômica.

Esses resultados se coadunam com pesquisas em curso no Instituto de Energia e Ambiente da USP que mostram que o desmatamento da Amazônia tem reduzido a quantidade de água que chega naturalmente a diversas usinas hidroelétricas na região central do país.

Para investidores e formuladores de política, a implicação é direta: o desmatamento não é apenas uma variável ambiental, mas um choque potencial de oferta agrícola. Menos floresta significa menos chuva; menos chuva significa maior volatilidade de produção; maior volatilidade implica custo de capital mais elevado para cadeias dependentes de clima estável.

Em um cenário de transição energética e crescente precificação de riscos climáticos, a floresta passa a ser vista como ativo gerador de fluxo — ainda que invisível nos balanços tradicionais. A pergunta deixa de ser apenas quanto custa preservar e passa a ser quanto custa perder.

Se confirmadas as tendências de degradação, o impacto não se restringe ao bioma. A erosão do “dividendo hídrico” da Amazônia pode se traduzir em menor crescimento potencial, pressão inflacionária via alimentos e aumento do prêmio de risco soberano associado à vulnerabilidade climática.

A floresta, nesse enquadramento, não é retórica ambiental. É infraestrutura macroeconômica. E seu valor, agora quantificado, entra definitivamente na conta.



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