O Ibrafe (Instituto Brasileiro dos Feijões e Pulses) indica em seu mais novo boletim que a demanda por feijão-carioca está fraca, enquanto os empacotadores “limpando o barracão” antes de voltar às compras.
O mercado segue firme, mas com pouca movimentação. Até aqui na semana, o que se
observa é feijão-carioca com cotações estáveis na faixa de R$ 320 a R$ 350 no Noroeste de
Minas Gerais. Em Ponta Grossa, há negócios por até R$ 360, embora com volume
negociado pequeno.
Há uma percepção de que ainda é possível ganhar tempo antes de pagar mais caro, mas também há consciência de que a oferta é curta e qualquer lote acima da média puxa referência rapidamente.
Esse diagnóstico ajuda a entender por que o feijão brasileiro entrou em outro patamar.
O fato de o feijão-carioca ter atingido o maior preço da série histórica do Cepea não pode ser visto como um pico isolado. É resultado de uma construção de cenário: redução de área em ciclos anteriores, custos elevados que afastaram produtores menos estruturados, menor oferta de lotes superiores e estoques enxutos ao longo da cadeia. O mercado está “silencioso por fora, tenso por dentro”, exatamente como descreve o próprio boletim assinado pelo presidente do Ibrafe, Marcelo Lüders.
Empacotadores reduziram compras, ajustaram estoques e postergaram recomposição. O movimento indica estratégia, não fraqueza. Eles tentam administrar o tempo. Mas sabem que, em ambiente de oferta restrita, qualidade manda — e calendário manda ainda mais.
No varejo, o consumidor já sentiu. Redes supermercadistas registraram redução de volume vendido nas primeiras semanas de fevereiro. O feijão é item essencial da dieta brasileira, portanto qualquer valorização aparece rapidamente no orçamento das famílias. Houve ajuste, mas não ruptura. A demanda desacelera, porém não desaparece. Isso mostra que o feijão continua estrutural no consumo nacional, mesmo sob pressão de preços.
Expansão internacional
Enquanto o mercado interno opera com preço recorde e oferta curta, o Brasil avança nas negociações para exportação de feijões à Índia. Esse ponto é estratégico. A Índia é um dos maiores consumidores globais de pulses, e consolidar esse canal significa mudar a posição do Brasil no comércio internacional. Historicamente, o país não era percebido como exportador relevante de feijão. Esse cenário está mudando.
A abertura de mercados externos altera comportamento dentro da porteira. Produtores passam a considerar padrão internacional, rastreabilidade, logística e regularidade de fornecimento. O feijão deixa de ser apenas cultura doméstica e passa a integrar planejamento de médio e longo prazo. Isso eleva o nível de exigência e profissionalização da cadeia.
Surge, então, a equação delicada: como equilibrar preços internos em máxima histórica com expansão exportadora? Como garantir abastecimento doméstico e, ao mesmo tempo, aproveitar a janela internacional? A resposta não está em restringir mercados, mas em aumentar produtividade, ampliar área com gestão profissional e reduzir a volatilidade estrutural que sempre marcou a cultura.
O que está em curso não é apenas uma alta. É uma transição de posicionamento, defendida há anos por Lüders. O feijão começa a deixar para trás a lógica da cultura de oportunidade e passa a ser tratado como ativo estratégico do agronegócio brasileiro.
Se houver coordenação, ganho de eficiência e visão de mercado, este momento pode marcar o início de um ciclo mais previsível e estruturado. Caso contrário, será apenas mais um pico seguido de acomodação.