Comparar a operação Absolute Resolve, que capturou Nicolás Maduro, e a Epic Fury, que culminou nos ataques ao Irã, é um exercício de falsa simetria e revela mais sobre quem compara do que sobre os fatos.

Em menos de dois meses, Donald Trump autorizou duas operações militares contra regimes com os quais Washington mantinha antagonismos históricos.

A primeira, em 3 de janeiro, capturou Nicolás Maduro em Caracas. A segunda, em 28 de fevereiro, em coordenação com Israel, eliminou o aiatolá Ali Khamenei e desarticulou parte substancial da cúpula político-militar iraniana.

Para parte do comentariado, trata-se de variações de uma mesma doutrina. A leitura tem apelo retórico, mas falha ao ignorar a assimetria estrutural entre os dois teatros.

A diferença central não está no presidente que ordena, mas no sistema que reage. A Venezuela é um Estado economicamente colapsado, com capacidade militar limitada e poder de retaliação praticamente nulo fora de suas fronteiras.

A captura de seu chefe de Estado produziu impacto regional e simbólico, mas não choque sistêmico global.

O Irã, por sua vez, é uma potência regional de quase 90 milhões de habitantes, com orçamento militar expressivo, arsenal de mísseis balísticos, programa nuclear sensível e uma rede de proxies que se estende do Líbano ao Iêmen.

Mais decisivo: o país ocupa posição estratégica no Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.

Nas primeiras horas após a operação americana, o gás europeu abriu com alta significativa e o Brent disparou. Uma escalada envolvendo Teerã não é crise periférica; é risco sistêmico, com potencial de produzir choques energéticos comparáveis aos de 1973, pressionar a inflação global e desorganizar cadeias produtivas.

A Venezuela não move mercados globais. O Irã pode paralisá-los.

Também diverge a natureza do objetivo. Maduro havia sido formalmente indiciado em 2020 pelo Distrito Sul de Nova York por narcoterrorismo. A operação foi enquadrada como ação policial extraterritorial: captura, transferência e apresentação a um juiz federal.

No caso iraniano, não havia indiciamento nem tribunal. A linguagem oficial foi de guerra estratégica e mudança de regime. Uma operação produz um réu; a outra elimina um líder de um país soberano.

O contexto diplomático amplia o contraste. A Epic Fury ocorreu após o anúncio de Omã de que Teerã aceitara não mais estocar urânio enriquecido e permitir verificação plena da Agência Internacional de Energia Atômica.

Atacar após um avanço negociado, ainda que frágil, altera profundamente a leitura internacional do ato. Capturar um indiciado não reconfigura a arquitetura global de segurança.

Em ambos os casos, Trump agiu sem autorização prévia do Congresso, mas a moldura jurídica também difere.

Na Venezuela, apoiou-se em indiciamentos preexistentes e na doutrina de autoridade constitucional inerente. No Irã, invocou-se “ameaça iminente”, justificativa contestada por analistas e ex-oficiais que veem na operação acionamento direto da Lei de Poderes de Guerra.

Reconhecer o fio condutor, a preferência pela força como instrumento central de política externa, não autoriza equivalência analítica.

Não se trata de absolver nem de condenar, mas de compreender proporções. Uma operação atravessou fronteiras; a outra atravessou o equilíbrio estratégico de uma região inteira.

Confundir ambas é reduzir a complexidade do sistema internacional a uma narrativa conveniente. E, na política global, narrativas podem confortar, mas são as consequências que permanecem.



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