A contaminação da política externa pela ideologia se aprofundou nos últimos dias nas Américas, com uma série de movimentos dos governos americano, chileno, argentino e brasileiro.
A discussão sobre a classificação do PCC e do Comando Vermelho está de volta, por iniciativa de republicanos na Comissão de Segurança Interna da Câmara dos Deputados dos EUA. O Departamento de Estado reiterou à CNN Brasil sua preocupação com a ameaça representada por esses grupos mas disse que não antecipa decisões como essa.
Essa classificação abre espaço para acordos de cooperação militar com governos alinhados ideologicamente, como o firmado em dezembro com o Paraguai de Santiago Peña, ou para ameaças de intervenções unilaterais, como os EUA fizeram contra embarcações venezuelanas.
Tratar como terroristas organizações criminosas que têm finalidades de ganho econômico e não de ameaça política a governos e Estados não ajuda em seu combate. Apenas abre caminho para erros de inteligência, abusos e massacres de inocentes, vulneráveis por serem pobres e morarem nas áreas de atuação dos criminosos.
Forças Armadas são treinadas para matar o inimigo e destruir o alvo, o que é adequado em guerras e no enfrentamento de grupos guerrilheiros e terroristas, mas não de criminosos comuns. Entretanto, uma fatia dos cidadãos, alarmados pela violência e com sede de vingança, tende a aplaudir o uso excessivo da força. Por isso é eleitoralmente interessante.
O tema divide a direita e a esquerda em todo o mundo. Ao se tornar parte da política do governo de Donald Trump para a América Latina, essa abordagem é encampada pela corrente liderada pela família Bolsonaro. Nesse contexto, o novo assessor sênior do Departamento de Estado de Políticas para o Brasil, Darren Beattie, ex-redator de discursos de Trump próximo da direita brasileira, pediu autorização para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão.
No sábado, o presidente dos EUA, Donald Trump, recebeu em Miami os presidentes de direita da Argentina, Paraguai, Chile (eleito), Bolívia, Equador, Costa Rica, Honduras, El Salvador, República Dominicana, Panamá, Trinidad e Tobago e Guiana, além de representantes do Peru, Guatemala, Bahamas e Belize.
A reunião serviu para lançar uma nova aliança de segurança chamada Coalizão Contra Carteis das Américas, dentro da iniciativa Escudo das Américas. Ela procurará impulsionar a cooperação militar dos EUA com os países latino-americanos.
A contaminação atinge também as relações bilalterais do Brasil com o Chile e a Argentina. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha confirmado sua presença na posse nesta terça-feira do novo presidente chileno, José Antonio Kast. Depois que o candidato a presidente e senador Flavio Bolsonaro aceitou convite de Kast para comparecer, Lula cancelou a viagem.
Lula repete assim a atitude adotada em dezembro de 2023, quando se recusou a comparecer à posse de Javier MIlei na Argentina porque Jair Bolsonaro havia sido convidado.
O governo Milei aceitou pela primeira vez um pedido de refúgio de um condenado à prisão no Brasil por participar do movimento golpista de janeiro de 2023. O brasileiro Joel Borges Correa, preso desde novembro depois de fugir para a Argentina, agora está protegido da extradição.
O refúgio só é concedido a um condenado pela Justiça de outro país quando há duvidas sobre a capacidade desse país de realizar julgamentos justos e imparciais, e por isso é uma medida aplicada contra regimes autoritários.
Não há razões técnicas ou de interesse nacional que justifiquem qualquer um desses movimentos dos EUA, Chile, Argentina e do próprio Brasil, no caso da recusa de ir à posse de Milei ou de Kast. São atitudes que revelam a prioridade dada a alinhamentos ideológicos em detrimento de relações proveitosas com outras nações.