A escalada da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã já aparece nos terminais de energia antes mesmo de produzir um choque físico de oferta.

O Brent voltou à faixa de US$ 100 por barril, refletindo um prêmio geopolítico crescente no mercado.

Para investidores e formuladores de política econômica, o movimento reacende uma referência inevitável: a crise do petróleo de 1973, o episódio que redefiniu a relação entre guerras no Oriente Médio e estabilidade econômica global.

Aquele choque começou com a Guerra do Yom Kippur, quando Egito e Síria atacaram Israel em outubro daquele ano. Em resposta ao apoio ocidental a Tel Aviv, países árabes produtores decidiram utilizar o petróleo como instrumento de pressão estratégica.

Sob coordenação da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e da Oapec (Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo), foi imposto um embargo contra aliados de Israel e iniciado um corte coordenado de produção.

O resultado foi um choque energético sem precedentes. Em poucos meses, o preço do petróleo quadruplicou, passando de cerca de US$ 3 para aproximadamente US$ 12 por barril.

A escalada desencadeou inflação global, recessão nas economias industrializadas e o surgimento de um fenômeno então pouco conhecido: a estagflação — crescimento fraco combinado com inflação elevada.

Filas em postos de gasolina nos Estados Unidos tornaram-se símbolo daquele momento de ruptura na economia internacional.

Comparado a esse episódio histórico, o movimento atual do Brent ainda parece moderado, mas o mecanismo de risco é semelhante. Se em 1973 o choque veio de um embargo deliberado de produção, hoje o risco está concentrado na logística energética.

A guerra no Golfo ameaça a circulação de petróleo pelo Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente.

Um bloqueio ou ataques a navios poderiam provocar um choque de preços capaz de reproduzir, em menor escala, a dinâmica de 1973.

A diferença fundamental é que o sistema energético mundial mudou profundamente desde então. Nos anos 1970, a dependência do petróleo era muito maior e a produção global estava concentrada em poucos países do Oriente Médio.

Hoje o mercado é mais diversificado, com produtores relevantes nas Américas e no Atlântico Norte. Além disso, a criação da Agência Internacional de Energia e das reservas estratégicas de petróleo foi justamente uma resposta institucional ao trauma do embargo árabe.

Outro ponto crucial é que a crise de 1973 foi resolvida principalmente pela via diplomática. A estabilização do mercado começou quando negociações conduzidas pelos Estados Unidos levaram a acordos de retirada militar entre Israel, Egito e Síria. A chamada shuttle diplomacy, conduzida por Henry Kissinger, reduziu a tensão regional e permitiu o fim do embargo petrolífero em março de 1974.

A história sugere que a crise atual também dependerá de uma solução política para evitar um choque energético maior. Enquanto o conflito permanecer concentrado em ataques e pressões logísticas, o mercado tende a reagir com volatilidade, mas sem ruptura estrutural.

No entanto, uma escalada militar mais ampla poderia transformar o risco geopolítico em um choque real de oferta.

Para a economia mundial, a implicação mais imediata aparece na inflação. O petróleo continua sendo um dos principais vetores de transmissão de choques externos para preços domésticos. Uma escalada mais intensa do Brent tende a pressionar custos de transporte, fertilizantes e energia, afetando cadeias produtivas inteiras.

No caso brasileiro, o impacto chega rapidamente às bombas. Mesmo com a política de preços da Petrobras menos diretamente vinculada ao mercado internacional do que no passado, o petróleo caro acaba se refletindo em gasolina, diesel e etanol ao longo do tempo.

A experiência de 1973 mostra que choques energéticos raramente ficam restritos ao setor petrolífero: eles costumam se transformar em inflação mais persistente e em desaceleração do crescimento econômico.

Meio século depois, a principal lição permanece clara. Conflitos no Oriente Médio podem começar como crises regionais, mas quando o petróleo entra na equação, suas consequências rapidamente se tornam globais.

O Brent de hoje ainda está longe de repetir o salto histórico de 1973, mas a história lembra que, em momentos de guerra, o mercado de energia raramente ignora a geopolítica por muito tempo.



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