Com o petróleo sujeito a volatilidade geopolítica e pressões climáticas cada vez maiores, países de diferentes regiões vêm ampliando a presença de biocombustíveis em suas matrizes de transporte. O aumento das misturas de biodiesel no diesel e de etanol na gasolina tornou-se uma das estratégias mais utilizadas para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, fortalecer cadeias agrícolas e conter emissões no setor de mobilidade.
No diesel, a iniciativa mais ambiciosa hoje ocorre na Indonésia. O país opera com uma mistura obrigatória de cerca de 40% de biodiesel (B40) e discute elevar essa proporção para B50, em um programa baseado principalmente no uso de óleo de palma. A política busca reduzir a importação de diesel e ampliar o valor agregado da produção agrícola local.
Nos Estados Unidos, a estratégia é distinta. O país utiliza misturas mais moderadas de biodiesel — normalmente entre B5 e B20 —, mas em grande escala. O consumo é impulsionado pelo Renewable Fuel Standard (RFS), programa federal que estabelece metas de uso de combustíveis renováveis e sustenta uma ampla cadeia produtiva baseada em óleo de soja, gorduras animais e resíduos.
Na América do Sul, a Colômbia utiliza uma mistura próxima de B10 no diesel. A Argentina, por sua vez, mantém um mandato de aproximadamente B7,5, com debates recorrentes sobre a possibilidade de elevar o percentual no futuro, em linha com o peso do complexo da soja em sua economia.
A Tailândia segue um modelo mais moderado. O diesel comercializado no país utiliza normalmente cerca de 7% de biodiesel (B7), embora existam misturas mais elevadas, como B20, destinadas principalmente a frotas comerciais. A política energética tailandesa busca equilibrar o uso do biodiesel produzido a partir de óleo de palma com a necessidade de evitar pressões excessivas sobre os preços dos combustíveis.
No caso da gasolina, o etanol desempenha papel central em diversos mercados. O Paraguai figura entre os países com maior participação do biocombustível na mistura, com níveis próximos de 30% de etanol na gasolina. Na Argentina, o mandato nacional gira em torno de 12%.
Nos países desenvolvidos, o modelo tende a combinar misturas moderadas com alternativas tecnológicas. Na Suécia e nos Estados Unidos, a gasolina padrão contém cerca de 10% de etanol (E10), enquanto veículos flex-fuel podem utilizar combustíveis com até 85% de etanol (E85).
Na Ásia, a Índia vem ampliando rapidamente seu programa nacional de etanol. O país atingiu recentemente a meta de cerca de 20% de etanol na gasolina, após forte expansão da produção doméstica baseada em cana-de-açúcar e grãos.
O Brasil ocupa posição singular nesse cenário. A gasolina comercializada no país contém atualmente 30% de etanol anidro (E30), um dos percentuais mais elevados do mundo, enquanto o diesel incorpora 15% de biodiesel (B15). A ampla presença de veículos flex-fuel — capazes de operar também com etanol hidratado — amplia ainda mais a participação dos biocombustíveis no consumo energético do transporte. Políticas como o RenovaBio reforçam esse papel ao criar incentivos de mercado para a redução de emissões.
O avanço dessas misturas mostra que os biocombustíveis se consolidaram como um instrumento relevante da política energética global. Além de contribuir para a descarbonização do transporte, eles funcionam como mecanismo de valorização de cadeias agrícolas estratégicas — como soja, milho, cana-de-açúcar e óleo de palma — que passam a desempenhar papel crescente na segurança energética de vários países.