O Brasil começa a precificar, de forma explícita, um ativo que sempre operou nos bastidores do sistema elétrico: flexibilidade. A preparação do primeiro leilão federal de centrais de armazenamento — com estimativas de investimentos na casa de R$ 10 bilhões e capacidade na ordem de gigawatts — marca a transição de um modelo baseado na oferta para outro em que o valor está em entregar energia no momento certo.

O movimento é consequência direta da expansão das fontes renováveis, sobretudo solar e eólica, cuja geração varia ao longo do dia. Em determinados momentos, há excesso de energia que não encontra consumo e precisa ser limitado; em outros, o sistema recorre a fontes mais caras para atender à demanda, como as termoelétricas. O Operador Nacional do Sistema já trata esse descompasso como parte da nova dinâmica operacional de um sistema que opera com maior oferta de energia de fontes renováveis.

É nesse ponto que entram as baterias. Ao armazenar energia em períodos de sobra e devolvê-la nos momentos de maior demanda, elas reduzem desperdícios, suavizam picos de preço e diminuem a necessidade de uso de termoelétricas. Mais do que uma solução tecnológica, passam a atuar como instrumento de eficiência sistêmica — com impacto direto sobre custo marginal e estabilidade.

A conta começa a fechar também no nível econômico. O custo global das baterias caiu de forma consistente na última década, impulsionado pela escala industrial e pelo avanço dos veículos elétricos. Em aplicações industriais, o armazenamento já compete, em alguns casos, com geradores a diesel, sobretudo quando se considera resposta rápida, confiabilidade e menor custo operacional ao longo do tempo.

O principal entrave deixou de ser tecnológico. Hoje, o desafio é regulatório. O Brasil ainda define como enquadrar e remunerar um ativo que ora consome, ora fornece energia ao sistema. Sem regras claras, persistem distorções — como a possibilidade de dupla cobrança pelo uso da rede elétrica — que podem comprometer a viabilidade dos projetos.

Além disso, o país ainda não consolidou um mercado estruturado para serviços ancilares, como controle de frequência e suporte à rede, justamente onde as baterias capturam maior valor. Sem a possibilidade de combinar múltiplas fontes de receita, o retorno dos investimentos tende a depender de contratos específicos.

É nesse contexto que se insere o primeiro leilão federal de baterias em discussão no âmbito do Leilão de Reserva de Capacidade de 2026, conduzido pelo Ministério de Minas e Energia. O desenho ainda depende da definição final de diretrizes e calendário, mas já é visto como o principal gatilho para estruturar esse novo mercado.

Se bem calibrado, o leilão pode inaugurar um ciclo relevante de investimentos, criar escala para a tecnologia e induzir o desenvolvimento de uma cadeia produtiva local. Se mal desenhado, o risco é contratar ativos subutilizados ou com custo elevado para o consumidor — um erro difícil de corrigir depois.

No curto prazo, a adoção deve avançar em duas frentes. Projetos em escala de rede tendem a ganhar tração com a contratação regulada, enquanto aplicações industriais já encontram nichos economicamente viáveis. No segmento residencial, a difusão deve permanecer limitada, ao menos por ora, diante do impacto no tempo de retorno dos sistemas.

No fundo, o Brasil não precisa de baterias para expandir a geração renovável — isso o país já faz com vantagem comparativa. Precisa de baterias para tornar essa expansão eficiente. Em um sistema cada vez mais intermitente, o valor deixa de estar apenas na produção e passa a residir no armazenamento e na sua coordenação. É esse novo preço — o da flexibilidade — que começa agora a emergir.



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