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Certa vez, o programa “Caçadores de Mitos” resolveu testar se era verdade que deixar uma goteira pingando sobre a testa de uma pessoa poderia ser uma forma de tortura, como dizem que se fazia no passado. Para quem não conhece, “Caçadores de Mitos” foi um reality show científico muito famoso, em que lendas urbanas e mitos difundidos eram testados em experimentos na TV. Com o consentimento de uma das estagiárias, os apresentadores amarraram-na sobre uma maca e prenderam sua cabeça para que ela não desviasse das gotas. Praticamente na mesma hora ela começou a chorar. Lembro-me de uma especialista entrevistada no episódio dizendo que eles estavam brincando com coisa séria, porque submeter assim uma pessoa à total ausência de controle é algo muito agressivo.

De fato, a privação de autonomia e sensação de perda de controle estão entre os estímulos mais aversivos para os seres humanos. Nós precisamos sentir que podemos fazer algo, que dá para agir, interferir, mudar o curso das coisas. Provavelmente essa urgência foi fundamental para nossa sobrevivência: quem não aceitava qualquer fatalidade resignadamente deve ter tido mais chance de passar seus genes adiante. Mas como tudo tem dois lados, esse ímpeto também carrega um lado perigoso, pois mesmo quando não há o que fazer, ele nos impele a continuar tentando qualquer coisa, contra todas as evidências, mesmo que racionalmente não haja justificativa.

Vejamos o caso da polilaminina. Relembrando resumidamente, ela é uma substância que após resultados em pesquisas laboratoriais, despertou o interesse como possível tratamento para pacientes com lesão medular. O estudo brasileiro que ficou famoso foi feito para testar se seu uso era viável, não servindo para avaliar sua eficácia. Por uma sucessão de eventos (disparados pelo laboratório que tem a patente da substância, diga-se), a opinião pública acreditou que havia uma prova de que a molécula poderia curar pacientes com lesão medular. Não havia. O experimento não servia para testar eficácia, ele não responde a essa pergunta. E mesmo esse estudo de viabilidade sequer fora publicado, carecendo ainda da validação científica.

Após entusiasmo inicial da imprensa, que quase transforma o caso numa nova fosfoetanolamina (a famigerada “pílula do câncer” que dez anos atrás causou furor na socieadade), as manchetes começaram a mudar, trazendo mais cautela com relação ao tema. Talvez vacinados (com perdão pelo trocadilho) após o desastre da desinformação durante a pandemia de covid-19, os veículos passaram a perguntar sobre publicação revisadas por pares, grupo controle, tamanho da amostra, vários elementos necessários para dizer que um tratamento funciona.

Embora tal ajuste de rumo seja um resultado a se celebrar, já que o desastre maior foi contido, é bastante didático observarmos como mesmo a breve repercussão entusiasmada já foi suficiente para estimular distorções importantes: em poucas semanas a Anvisa recebeu dezenas de decisões liminares determinando a aplicação da substância, invocando o uso compassivo diante de falta de evidências. O que me parece ser injustificável.

O uso compassivo se justificaria se houvesse pelo menos indícios de eficácia, mesmo sem provas cabais. Como o tempo da ciência é mais longo do que desejamos ou necessitamos, eventualmente pode-se autorizar o uso de medicamentos de forma provisória baseando-se em resultados preliminares sobre segurança e possível eficácia, ainda que faltem resultados definitivos. Mas esse não era o caso. Há quem imagine que a aplicação se justificaria por não haver resultados negativos, por inexistirem provas de que ela não funciona. Ora, trata-se obviamente de um raciocínio falacioso: também não há provas de que infusões com chá de picão não funcionem. E ninguém vai dar uma liminar autorizando esse uso só por causa disso.

Eu entendo o judiciário, contudo. Como vimos inicialmente, o ser humano sempre é impelido a tentar alguma coisa, a agir, fazer algo. Diante dos rumores de que a droga poderia ser efetiva, o resultado foi a onda de liminares determinando seu uso.

Talvez a polilaminina comprove ser eficaz para tratar lesões medulares. Tomara – eu torço, como todo mundo. Mas, por enquanto, faltam provas. E a falta de rigor em deixar isso claro – mesmo por um breve momento – foi suficiente para criar mais confusão do que seria necessária.

 



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