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Joaquim José da Silva Xavier, o popular Tiradentes, foi transformado em herói nacional, mártir da liberdade e principal rosto da Inconfidência Mineira. No entanto, a “liberdade” defendida em 1789, em Vila Rica, tinha cor, classe e endereço: tratava-se da liberdade em relação aos impostos da Coroa, reivindicada pela elite mineradora branca de sua época. Nos autos da devassa e nas propostas dos inconfidentes, a escravidão base real da economia do ouro e dos diamantes sequer foi colocada em questão.

Joaquim José e seus companheiros, homens letrados, proprietários e militares, lutavam contra o fisco português, não contra o tronco. O Brasil que projetavam continuaria negro no cativeiro e branco no comando.

O contraste torna-se evidente quando olhamos para a Bahia, nove anos depois. Em 1798, eclodiu a Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Búzios ou Inconfidência Baiana. Diferentemente de Minas, tratava-se de um movimento liderado majoritariamente por homens negros e por setores populares — alfaiates, soldados, artesãos e homens livres pobres. À frente estavam quatro líderes negros: Lucas Dantas, João de Deus, Manuel Faustino e Luiz Gonzaga das Virgens. Eles foram enforcados em 8 de novembro de 1799, e suas cabeças foram expostas em postes pela cidade de Salvador.

Tenho orgulho de ter, em minha trajetória, um livro escrito para a Escola Olodum contando a história dessa revolta baiana e de seus líderes. E posso afirmar: a diferença entre essas duas inconfidências não está apenas na punição, mas no programa político. Os “manuscritos sediciosos” afixados nos muros exigiam república, igualdade racial, fim dos privilégios de cor, redução de impostos e, centralmente, o fim da escravidão.

A Inconfidência Mineira é ensinada como marco da independência. Já a Inconfidência Baiana é frequentemente apagada dos livros ou reduzida a uma nota de rodapé. Não é por acaso. O Brasil republicano, fundado por herdeiros da elite escravista, escolheu Tiradentes porque ele era branco, militar e não ameaçava a ordem racial. Os búzios eram negros, plebeus e queriam dinamitar a base da riqueza nacional: o trabalho escravizado. Um foi elevado a símbolo cívico, com feriado e estátuas. Os outros seguem sem estátua, sem feriado, sem rosto nas paredes das escolas.

A economia ajuda a explicar esse silêncio. Minas Gerais, em 1789, respirava ouro e escravidão. Um inconfidente típico, como Tomás Antônio Gonzaga ou Cláudio Manuel da Costa, era proprietário de dezenas de africanos escravizados. Questionar a escravidão significaria questionar sua própria fortuna, seu status e o futuro da capitania. Já na Bahia, os líderes da Conjuração não tinham nada a perder além dos grilhões. Por isso puderam escrever o que os mineiros silenciaram: “queremos um governo de igualdade e que sejam abolidos todos os privilégios que só servem para os brancos”. A radicalidade vinha da posição na senzala, não na casa-grande.

Revisitar Tiradentes hoje é recusar a fábula do herói isolado e lembrar que a liberdade pela qual ele morreu não incluía os negros que carregavam o ouro nas costas. É também retirar a Revolta dos Búzios do porão da história e reconhecer que o primeiro projeto republicano e abolicionista do Brasil foi escrito por mãos negras, em 1798, e pago com a cabeça em praça pública. Enquanto o país celebrar a Inconfidência que manteve a escravidão e esquecer a que exigiu seu fim, continuaremos repetindo o erro dos inconfidentes mineiros: gritar “liberdade” mantendo o chicote na mão.

Somente agora no século 21 a câmara dos deputados decidiu incluir os nomes dos heróis negros da revolta dos Búzios no panteão dos heróis da pátria pelorojeto de Lei 5819/09, do deputado Luiz Alberto (PT-BA).



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