O mercado financeiro brasileiro reagiu negativamente nesta quarta-feira (3) diante de uma combinação de fatores internos e externos que pressionam a economia do país.
Com juros e dólar em alta, o cenário foi descrito pela comentarista de Economia do CNN Money Rita Mundim como uma “tempestade perfeita”, resultado da confluência entre tensões comerciais com os Estados Unidos, a crise no Oriente Médio e problemas fiscais domésticos não resolvidos.
Novo tarifaço de Trump e o despreparo brasileiro
O governo de Donald Trump encontrou uma nova forma de retomar as tarifas globais, desta vez utilizando mecanismos legais alternativos após a Suprema Corte norte-americana declarar inconstitucional, em 20 de fevereiro, o uso de uma lei de poderes econômicos emergenciais de 1977.
Segundo Mundim, desde aquela data, Trump havia declarado publicamente que usaria “todas as armas possíveis dentro da legalidade” para recompor as tarifas.
“Não me causou surpresa. Me causa surpresa o despreparo do governo em receber essa medida”, afirmou.
O assunto foi tratado entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Trump no último encontro presencial dos dois, e uma audiência pública sobre práticas de comércio foi realizada em abril — ocasião em que o Brasil optou por não enviar representantes, encaminhando apenas uma carta negando a existência de trabalho forçado e infantil no país.
Mundim classificou que o novo tarifaço de Trump faz parte da estratégia de bilateralismo dele para renegociar relações comerciais com seus parceiros.
Pix no centro das tensões diplomáticas
Outro ponto de tensão analisado por Mundim foi a questão do Pix. Para ela, faltam esclarecimentos aos norte-americanos sobre o funcionamento da ferramenta.
“O Pix não é um produto comercial. É uma plataforma pública, todo mundo tem acesso”, explicou, acrescentando que tanto instituições financeiras brasileiras quanto estrangeiras que operam no Brasil se beneficiam igualmente da ferramenta.
Mundim concordou com nota divulgada pela Febraban, segundo a qual estão faltando informações aos americanos sobre a importância do Pix para todo o sistema financeiro.
Como solução para blindar o Pix de disputas políticas e diplomáticas, Mundim sugeriu a constitucionalização da plataforma, em linha com proposta do senador Plínio Valério (PSDB-AM), que apresentou um substitutivo à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) de Autonomia do BC (Banco Central) incluindo proteção constitucional ao Pix.
“É só constitucionalizar o Pix. Pronto, acabou o problema”, defendeu.
Ano eleitoral agrava o cenário
Para Mundim, a apreensão do mercado também se explica pelo tom político que tem marcado as manifestações do governo brasileiro. Ela alertou que a tensão comercial com os Estados Unidos — descritos como o maior investidor no Brasil e um dos maiores parceiros comerciais do país, ao lado da China — precisa ser tratada pelo canal diplomático, sem ser transformada em peça de campanha eleitoral.
“A polarização e a politização nesse momento é muito ruim para o canal diplomático”, disse. “É preciso maturidade dos nossos políticos e das nossas autoridades ao tratar o problema”, concluiu.