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O Japão chega à mesa de negociação com o Mercosul em uma posição bem diferente daquela que marcou a economia japonesa por décadas.

O país ainda é uma potência industrial, tecnológica e financeira, mas hoje é pressionado pela dependência de energia importada mais cara, pelas tarifas de Trump, pela ascensão tecnológica da China e pela perda de espaço da indústria japonesa no mundo.

Nesse contexto, os históricos protecionistas japoneses abrem frentes de negociação com parceiros regionais e, agora, com o Mercosul.

Brasil e Japão discutem o início de negociações para um acordo de parceria econômica entre o bloco sul-americano e a quarta maior economia do mundo.

O Japão busca novos fornecedores de minerais e energia, um parceiro confiável para alimentos e alternativas para rotas comerciais cruciais, como o estreito de Ormuz, que estrangulou o fornecimento de petróleo para as refinarias no país.

Do outro lado, Brasil tenta atrair investimento para desenvolvimento de tecnologia, aumentar o valor agregado das exportações e diversificar os destinos para nossos “best sellers” (commodities em especial).

O comércio entre os dois é relevante, mas poderia ser bem maior. O fluxo entre Brasil e Japão somou US$ 11,6 bilhões em 2025. O Brasil teve déficit de US$ 562 milhões.
O retrato da balança comercial ajuda a entender a oportunidade e o problema brasileiro a ser resolvido.

Nossas exportações são concentradas em poucos produtos. Café, minério de ferro, frango e alumínio são os quatro mais vendidos. Eles respondem por 59,4% das exportações.

Do lado japonês, compramos principalmente partes de veículos, aparelhos de medição, motores, máquinas e equipamentos. A concentração é menor, de 33,8%, mas o perfil é claro: o Japão vende bens industriais e tecnológicos, de alto valor agregado. O Brasil vende alimentos e minerais. O perfil é parecido para nossos parceiros do Mercosul, também fortes em commodities e frágeis na indústria, salvo alguns setores.

Mercosul pode ser uma resposta parcial a um problema de segurança econômica. O país tem pouca disponibilidade de recursos naturais e está exposto a choques externos.
A crise no Oriente Médio tornou essa vulnerabilidade mais evidente. O Japão depende fortemente do petróleo importado da região. Em momentos de tensão aumentam os custo de importação, risco de abastecimento e aumento de preços.

Para o Brasil, o acordo pode abrir portas em um mercado rico, exigente e que paga por qualidade. O Japão é um país de renda alta e padrões sanitários rigorosos.
O caso da carne é um bom exemplo. O Brasil é o maior fornecedor de frango aos japoneses, mas ainda há barreiras sanitárias para nossa carne bovina, que concorre com os Estados Unidos.

O desafio é evitar que o acordo apenas reforce o padrão tradicional da relação: Brasil exportando commodities e importando produtos industriais. Esse padrão traz volume de comércio, mas nos arremessa em um jogo em que o ganhador é aquele que cobra menos.

O segundo desafio está na indústria. O Japão tem empresas muito competitivas em veículos, autopeças, máquinas, equipamentos e tecnologia. Uma abertura comercial mal calibrada vai pressionar setores sensíveis do Brasil e da Argentina, que já terão de lidar com a concorrência européia (sem tarifas) e Chinesa (alimentada pela hiperprodução)

O investimento em terras raras e mineração pode quebrar esse ciclo. O Japão, lançou um plano de financiamento para o mapeamento e extração de terras raras em outros países. o acordo formal com o Mercosul deve atrair empresas e investimento e facilitar a exportação de insumos, ou, até mesmo, de produtos industrializados.

O momento é propício para novos negócios. O tabuleiro do comércio global está bagunçado.



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