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Não deve ter sido um dia fácil para Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump: na chamada Superquarta, os bancos centrais trouxeram recados que nenhum dos dois presidentes gostaria de ouvir.

No Brasil, o Copom trouxe para o balanço de riscos pela primeira vez um assunto que há tempos preocupa os mercados: o impacto dos gastos públicos voltados ao estímulo da economia sobre a inflação.

Já nos Estados Unidos, o Federal Reserve voltou a demonstrar cautela diante dos riscos inflacionários e evitou sinalizar uma queda rápida dos juros.

No caso brasileiro, o sinal foi especialmente relevante.

Ao incluir a questão fiscal no balanço de riscos, o Copom praticamente oficializou uma preocupação que já vinha sendo manifestada por investidores e economistas há vários meses: a de que estímulos fiscais e parafiscais podem aumentar a demanda da economia justamente quando o Banco Central tenta desacelerá-la para controlar a inflação.

A referência também contrasta com o discurso adotado por parte do governo nos últimos anos.

Integrantes da administração Lula frequentemente argumentam que os juros elevados decorrem principalmente de uma escolha da autoridade monetária e minimizam a influência dos gastos públicos sobre a inflação e sobre a própria trajetória da Selic.

O comunicado desta quarta-feira (17) sugere o oposto. Na visão do Banco Central, políticas que estimulam a atividade econômica podem dificultar a convergência da inflação para a meta e exigir uma política monetária mais restritiva por mais tempo.

Enquanto o governo estimula o consumo, a renda, o crédito e a atividade econômica, o Banco Central tenta reduzir a velocidade da demanda para conter a inflação. E o resultado tende a ser uma economia menos eficiente.

É que os estímulos fiscais até ajudam o crescimento, mas de forma desordenada: determinados grupos recebem os benefícios diretos dos estímulos governamentais, enquanto o custo do combate à inflação é distribuído por toda a sociedade na forma de crédito mais caro, menor investimento e crescimento mais fraco.

Garantir o espaço para um corte de juros seria capaz de beneficiar de forma mais equilibrada todos os agentes econômicos.

O recado do Fed

Embora tenha mantido os juros inalterados, o banco central americano reforçou as preocupações com a inflação e atualizou suas projeções mostrando um cenário mais desafiador para a política monetária.

O chamado “dot plot”, que reúne as expectativas dos dirigentes do Fed para os juros, mostrou uma divisão maior dentro da instituição.

Nove integrantes passaram a indicar que não enxergam cortes ou veem um número menor de reduções de juros à frente, refletindo a preocupação com a persistência das pressões inflacionárias.

Para Trump, que tem feito críticas frequentes ao Fed e defendido juros mais baixos para impulsionar o crescimento da economia americana, o resultado ficou longe do ideal. Assim como Lula, o presidente americano gostaria de ver condições financeiras mais favoráveis para acelerar a atividade econômica.

Mas a mensagem enviada pelos dois bancos centrais nesta superquarta foi clara: enquanto a inflação continuar representando um risco, o espaço para uma redução mais rápida dos juros seguirá limitado. Para Lula e Trump, isso significa que o calendário eleitoral e o calendário dos juros podem continuar seguindo caminhos diferentes.



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