Com apenas 143 m³ de água disponível por habitante ao ano — menos do que regiões tradicionalmente associadas à escassez hídrica — a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) depende cada vez mais da capacidade de antecipar secas.
É nesse contexto que o governo do estado de São Paulo anunciou, em 19 de junho, o aprimoramento da metodologia de monitoramento hídrico da região, com foco específico no Cantareira, o principal sistema de abastecimento da RMSP. A atualização é bem-vinda e tecnicamente consistente. Há, entretanto, limitações no modelo anunciado e que precisam ser consideradas.
A nova metodologia corrige três fragilidades centrais: cria uma curva de contingência específica para o Cantareira, que sistematicamente tem recebido menos chuva do que a média histórica. Ela também considera como referência para análises históricas o período de 2011–2025, incorporando eventos como o El Niño e La Niña.
Com base nessa metodologia, foi estabelecida uma meta de 53% de volume útil para o Sistema Integrado Metropolitano (que considera todos os reservatórios da RMSP) e de 40% para o Cantareira em abril de 2027.
Há, porém, quatro lacunas que precisam ser nomeadas. A primeira é o corte da série em 2011, que descarta a crise de 2003–2004 e os quatro El Niño e cinco La Niña ocorridos entre 2000 e 2010 — uma diversidade de ciclos de El-Niño e La-Niña que enriqueceria significativamente as projeções.
A segunda é não considerar a Oscilação Decadal do Pacífico (PDO), fenômeno de ciclos mais longos que modula a intensidade do El Niño e da La Niña. Vale observar que as duas maiores crises do Cantareira neste século (2003–2004 e 2014–2016) ocorreram durante fases positivas da PDO, o que sugere a necessidade de acompanhar esse indicador como um possível modulador de risco.
A terceira lacuna é a demanda. A nova metodologia não incorpora explicitamente instrumentos de gestão da demanda, como tarifação progressiva, reuso em larga escala, eficiência hídrica industrial ou captação descentralizada de chuva, que podem amenizar o estresse hídrico enfrentado pela RMSP.
A quarta é a comunicação: a população da Grande São Paulo não tem acesso a um painel de alerta simples — como um semáforo hídrico público em tempo real — nem às previsões climáticas que orientarão as decisões da Sabesp nos próximos meses.
A nova metodologia amplia o conjunto de instrumentos disponíveis. Falta garantir que ela venha acompanhada de agenda igualmente rigorosa no campo da demanda, da equidade e da comunicação — dimensões que, juntas, transformam um bom modelo técnico em política hídrica.
O problema não está no que foi incorporado ao modelo, mas no que ainda ficou de fora. É correto dizer que houve um avanço, mas ele ficou aquém do que seria de se esperar para uma das duas maiores metrópoles da América Latina.