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Uma expedição realizada pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com diversas universidades e centros de pesquisa, identificou que não há nenhum trecho do rio Tietê que esteja totalmente livre de contaminação.

Para a “Expedição Tietê 2025”, realizada entre 9 e 14 de junho do ano passado, foram percorridos mais de 1.100 quilômetros de todo o rio — desde a sua nascente em Salesópolis até a foz, onde ele deságua no rio Paraná —, com o objetivo de analisar diversos parâmetros da qualidade da água.

Segundo o estudo, durante o trajeto, foram identificados microplásticos em todos os 14 pontos analisados, além de 25 tipos de agrotóxicos e 16 substâncias entre fármacos e drogas ilícitas.

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A principal conclusão é que o Tietê apresenta múltiplas camadas simultâneas de contaminação: microbiológica, química, farmacológica, plástica, agrícola e orgânica.

Pressões que variam ao longo do percurso e refletem diretamente a urbanização, o saneamento insuficiente, o uso agrícola do solo, a presença de reservatórios e as mudanças na ocupação da bacia.

“O rio reflete as marcas do esgoto, dos padrões de consumo cotidiano, dos resíduos plásticos, das atividades agrícolas e do uso e ocupação do solo na bacia hidrográfica. Quando encontramos microplásticos em todos os pontos, agrotóxicos ao longo do percurso e substâncias como fármacos e drogas ilícitas na água, não estamos olhando para problemas separados, mas de um conjunto de pressões que atuam de forma simultânea e cumulativa”, diz Gustavo Veronesi, porta-voz da SOS Mata Atlântica.

Poluentes encontrados

Os microplásticos, presentes em todos os pontos, variaram de 330 a 23.587 partículas por metro cúbico, enquanto a predominância de fibras aponta para fontes como efluentes domésticos e industriais, drenagem urbana, lavagem de roupas sintéticas e descarte inadequado de resíduos.

As maiores concentrações foram registradas em trechos urbanos, como Osasco, e em reservatórios do interior, como Promissão, onde se registrou o pico, já que as barragens funcionam como zonas de retenção e chegam a acumular de 10 a 17 vezes mais partículas do que os trechos de correnteza. Na comparação internacional, os níveis observados no Tietê ficam abaixo dos de alguns rios asiáticos e acima dos de regiões europeias, o que leva os pesquisadores a classificarem o sistema como de impacto moderado a forte.

De acordo com a pesquisa, as 16 substâncias identificadas entre fármacos e drogas ilícitas – incluindo cocaína e seu metabólito, a benzoilecgonina, além de carbamazepina, diclofenaco e losartana – funcionam como sinais químicos da presença humana no rio. A cafeína, detectada em todos os pontos, consolida-se como marcador da poluição por esgoto doméstico.

Por isso, a recuperação do Tietê exige uma abordagem integrada, que combine ampliação do saneamento, fiscalização efetiva, planejamento territorial e monitoramento contínuo da qualidade ambiental, envolvendo Estado, municípios, comitês de bacias hidrográficas, indústrias, comércio, agricultores e população.

Gustavo Veronesi, porta-voz da SOS Mata Atlântica

Já os 25 tipos de agrotóxicos, de um total de 46 compostos investigados, mostram que a poluição do Tietê não se restringe às áreas urbanas. Nos trechos do Médio e Baixo Tietê, os resultados indicam maior influência agrícola, associada ao cultivo de cana-de-açúcar, soja e citros. Chama atenção a presença de atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004 e ainda amplamente usado no Brasil, detectado no Tietê acima dos limites legais em alguns trechos.

As análises físico-químicas também apontaram metais acima dos limites legais. O cobre foi detectado em concentrações além do permitido em todos os pontos analisados, enquanto o alumínio excedeu o limite em vários trechos. Em excesso, esses metais podem ser tóxicos para a vida aquática e reforçam a necessidade de monitoramento contínuo da qualidade da água.

Diagnóstico bioquímico

Os contaminantes encontrados refletem hábitos e padrões de consumo da população, funcionando como um verdadeiro “diagnóstico bioquímico coletivo” da sociedade paulista. Os
dados microbiológicos indicam presença de bactérias fecais, patógenos, parasitas e organismos associados a doenças gastrointestinais.

Já nas amostras coletadas na nascente, alguns indicadores ficaram acima dos limites legais para rios de melhor qualidade, chegando, em determinados casos, a até 40 vezes o permitido. Somada à detecção de fármacos e drogas ilícitas, essa condição faz do rio um indicador indireto das condições sanitárias e do modelo de ocupação dos territórios que atravessa.

Segundo Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da organização, o diagnóstico aponta para o caminho da solução. “A poluição do Tietê não nasce de uma única fonte e não será resolvida por uma única medida. Recuperar o rio exige saneamento, fiscalização, planejamento territorial, mudanças nas práticas agropecuárias, recuperação florestal e monitoramento contínuo, avançando de forma articulada ao longo de toda a bacia e no longo prazo.”

 

*Sob supervisão de Thiago Félix 



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