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O colapso de uma geleira na Antártica mostrou que o aumento do nível do mar pode acelerar de forma muito mais abrupta do que se imaginava. Ao registrar um recuo de 8,2 quilômetros em apenas dois meses, pesquisadores identificaram um mecanismo físico capaz de transformar décadas de mudanças graduais em um processo de rápida desestabilização.

A análise baseia-se em estudo publicado na revista científica Nature Geoscience por pesquisadores da University of Colorado Boulder, da University of Florida, da Northumbria University e de outras instituições internacionais. O trabalho, intitulado “Record grounded glacier retreat caused by an ice plain calving process”, documenta o recuo recorde da geleira e descreve o mecanismo físico que desencadeou sua rápida desestabilização.

O episódio ocorreu na geleira Hektoria, na Península Antártica, e ajuda a explicar por que os cientistas vêm alertando que nem toda resposta das geleiras ao aquecimento global acontece de forma linear. Em muitos casos, pequenas alterações acumuladas ao longo dos anos podem levar o sistema a ultrapassar um limite crítico, desencadeando mudanças rápidas e difíceis de interromper.

Durante décadas, o gelo permaneceu parcialmente apoiado sobre o leito rochoso submarino. Esse contato funcionava como um freio natural, reduzindo a velocidade com que a geleira escoava em direção ao oceano. O problema começou quando águas relativamente mais quentes passaram a provocar o afinamento da base da plataforma de gelo.

À medida que a espessura diminuía, parte da geleira deixou de tocar o fundo marinho. A perda desse apoio reduziu o atrito, acelerou o fluxo do gelo e favoreceu o surgimento de grandes fraturas. Em seguida, enormes blocos se desprenderam quase simultaneamente, fazendo a frente da geleira recuar em velocidade sem precedentes.

O aspecto mais relevante da pesquisa não está apenas na velocidade observada, mas na identificação do mecanismo responsável. Os autores demonstram que a presença de uma extensa planície de gelo apoiada sobre um leito quase plano tornou a geleira extremamente sensível a pequenas perdas de espessura.

Uma vez ultrapassado determinado limiar, o sistema entrou em um ciclo de retroalimentação: menos apoio no fundo rochoso significa maior velocidade; maior velocidade produz mais fraturas; mais fraturas geram novos desprendimentos, que expõem ainda mais gelo ao oceano.

Esse comportamento altera a forma de interpretar a estabilidade das geleiras antárticas. Uma geleira aparentemente estável pode estar apenas próxima de um ponto de ruptura invisível aos métodos tradicionais de monitoramento. Quando esse limite é superado, a resposta deixa de ser gradual e passa a ocorrer em escala de semanas ou meses.

É importante evitar interpretações exageradas. A Hektoria é uma geleira relativamente pequena quando comparada aos grandes sistemas glaciais da Antártica Ocidental. O estudo não afirma que geleiras como Thwaites ou Pine Island entrarão inevitavelmente no mesmo processo. O que demonstra é que um mecanismo físico antes pouco compreendido existe e poderá ocorrer sempre que condições semelhantes de geometria do leito e afinamento do gelo estiverem presentes.

A principal implicação é metodológica. Modelos utilizados para projetar a futura elevação do nível do mar precisarão representar com maior fidelidade esses processos de instabilidade abrupta. Em um cenário de aquecimento contínuo dos oceanos, compreender quando uma geleira perde seu “freio” pode ser tão importante quanto medir a velocidade com que ela está derretendo. A diferença entre uma mudança gradual e um colapso rápido poderá definir a velocidade com que comunidades costeiras terão de adaptar sua infraestrutura nas próximas décadas.



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