O Cantareira, principal sistema de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, voltou a operar em faixa de alerta e retoma uma pergunta conhecida: a cidade consegue agir antes que a escassez se transforme em crise? Ao fechar junho abaixo de 40% do volume útil, o principal sistema de abastecimento da Região Metropolitana passou a ter captação autorizada de até 27 metros cúbicos por segundo pela Sabesp. O dado é operacional, mas seu significado vai além da engenharia. Ele mede a margem de segurança de uma metrópole.
A mudança de faixa segue uma regra definida após a crise hídrica de 2014–2016, justamente para evitar improvisos quando o volume armazenado cai. Mas também seria equivocado tratar o alerta como burocracia. O Cantareira entrou em julho com pouca folga, depois de uma recuperação incompleta no período chuvoso e no início de uma estação seca que tradicionalmente reduz a capacidade de recomposição dos reservatórios.
A série de volume útil mostra essa dinâmica. O sistema começou 2026 com 22,69%, avançou para 35,78% em fevereiro e chegou a 43,65% em março. A partir daí, perdeu tração: 42,52% em abril, 40,33% em maio, 39,90% em junho e 39,82% em julho. A leitura correta não é de colapso iminente, mas de esgotamento da melhora observada no fim do verão. A chuva ajudou, mas não recompôs uma reserva confortável.
Os dados de precipitação, segundo a Sabesp, explicam parte do problema. Entre janeiro e junho, o Cantareira recebeu cerca de 443 milímetros de chuva, diante de uma média histórica de aproximadamente 845 milímetros para o período. Em termos simples, choveu pouco mais da metade do esperado no primeiro semestre. Janeiro foi o mês mais crítico, com 77 milímetros ante uma média de 262 milímetros. Fevereiro e março produziram alívio, mas não o suficiente para devolver ao sistema uma condição de normalidade.
Segundo dados da Sabesp, o Cantareira ainda conseguiu recuperar parte do volume no início do ano porque entrou mais água nos reservatórios do que foi retirada para abastecimento. Essa folga, porém, encolheu com a chegada da estiagem. No início de julho, a água que entrava já estava praticamente no mesmo nível da água captada. Quando isso acontece, o sistema deixa de ganhar segurança e passa a depender mais de economia, controle de perdas e gestão cuidadosa da operação.
São Paulo está em uma condição melhor do que em 2014. Naquele ano, entrava muito menos água nos reservatórios do que era retirada para abastecer a população, o que empurrou o sistema para uma situação crítica. Em 2026, apesar do alerta, o primeiro semestre ainda fechou com mais água entrando do que saindo.
Mas comparar apenas com o pior momento da crise passada pode induzir a erro. A régua correta não deve ser o colapso, e sim a capacidade de evitar que um período seco previsível produza uma nova deterioração.
A transferência de água do rio Jaguari para o reservatório Atibainha, em operação desde 2018, ganhou reforço temporário em junho de 2026, quando os órgãos gestores autorizaram o aumento do volume que pode ser levado ao Cantareira até o fim do ano. A medida ajuda a dar mais segurança ao abastecimento da Grande São Paulo, mas não substitui a chuva nem elimina a necessidade de economizar. Funciona como uma reserva de apoio, não como autorização 43 para gastar mais.
Economizar água, portanto, não pode continuar sendo uma resposta de emergência acionada apenas quando os reservatórios caem. Precisa virar uma regra permanente de segurança econômica para a Região Metropolitana de São Paulo. Isso significa ampliar o reúso em larga escala, reduzir perdas, investir em educação ambiental e adotar medidas tarifárias que incentivem o consumo eficiente.
Com chuvas mais irregulares, depender da recuperação dos reservatórios a cada verão é uma estratégia frágil. Sem resiliência climática, a falta de água deixa de ser apenas um problema ambiental e passa a ameaçar produtividade, custos, investimentos e a própria rotina econômica da maior metrópole do país.