Assistir aos jogos da Copa do Mundo e ouvir as músicas tocadas nos estádios pode despertar uma curiosidade: como essas canções são escolhidas? É coincidência que “Wonderwall” toque após as partidas da Inglaterra? “Freed from Desire” e “Livin’ on a Prayer” aparecem sempre? E por quê?

A resposta é simples: nada é aleatório.

Segundo a Fifa, mais de 750 músicas são selecionadas previamente para o torneio. A entidade conta com uma equipe dedicada ao entretenimento nos estádios, que trabalha em conjunto com as associações nacionais participantes para montar playlists que combinam clássicos do ambiente esportivo com canções populares de cada país.

Cada seleção possui uma música de assinatura, tocada durante o anúncio da escalação, uma trilha para o aquecimento e outra executada sempre que a equipe marca um gol. Além disso, após cada partida, a torcida do time vencedor canta uma música específica para celebrar o triunfo.

As playlists também oferecem um retrato cultural da Copa do Mundo, que em 2026 contou, pela primeira vez, com a participação de 48 seleções.

Algumas músicas ultrapassam fronteiras e aparecem nas listas de diferentes países. É o caso de “Seven Nation Army”, do The White Stripes, “Thunderstruck”, do AC/DC, e do sucesso eurodance dos anos 1990 “Freed from Desire”, de Gala, presente em estádios esportivos ao redor do mundo há pelo menos uma década.

Para Andrew Lawn, autor britânico do livro “We Lose Every Week: The History of Football Chanting” (Perdemos Toda Semana: A História dos Cânticos de Futebol, em português), essas músicas compartilham características em comum: são marcantes, divertidas e facilmente reconhecidas pelo público.

Segundo ele, o contexto também desempenha papel fundamental.

“Eles passam a ser associados a um momento quando esse momento é bem-sucedido. Depois permanecem porque esse tipo de emoção acaba ficando ligado à música”, afirmou.

Um exemplo é “Sweet Caroline”, de Neil Diamond. A canção já era popular entre torcedores de diferentes modalidades esportivas, mas ganhou força entre os ingleses após a pandemia de Covid-19, quando os versos sobre “dar as mãos”, “estender a mão”, “me tocar” e “te tocar” ganharam um significado especial depois de meses de isolamento social e lockdowns.

Do mariachi ao rock australiano

Além dos sucessos globais, muitas músicas refletem a identidade cultural de cada país.

A Argentina escolheu “El Matador”, da banda Los Fabulosos Cadillacs, como música de aquecimento e também para comemorar os gols. Apesar do refrão “Matador! Matador!” parecer celebrar o faro de gol de Lionel Messi, a música tem um significado bem mais sombrio: aborda as ditaduras latino-americanas e a violência de Estado nos anos 1970.

Já Gana utiliza “Kakalika”, sucesso dançante lançado em 2025 pela dupla DopeNation, tanto como música de assinatura quanto para celebrar gols. Os próprios artistas descrevem a faixa como uma mistura de estilos e idiomas nacionais e internacionais, criada para celebrar a diversidade e incentivar o público a se divertir.

O México optou por três músicas diferentes do Mariachi Vargas, tradicional grupo de música mariachi fundado em 1897, que atravessou diversas gerações e continua em atividade.

A Coreia do Sul, por sua vez, escolheu uma seleção de músicas de K-pop interpretadas por artistas como Blackpink e BTS.

Quando Kylian Mbappé marca pela França, os torcedores comemoram ao som de “One More Time”, da dupla francesa de música eletrônica Daft Punk. A Austrália adotou como música de assinatura o clássico “Down Under”, da banda Men At Work, enquanto a Bélgica aquece ao som do hino techno “Pump Up the Jam”, do Technotronic.

Músicas que conquistam os torcedores durante o torneio

Em alguns casos, as escolhas evoluem ao longo da competição conforme a reação das arquibancadas.

Foi o que aconteceu com “Wonderwall”, do Oasis, que se tornou presença constante após a vitória da Inglaterra por 4 a 2 sobre a Croácia, na estreia da seleção na Copa do Mundo de 2026. Na ocasião, os torcedores cantaram a música em coro após o apito final.

O capitão Harry Kane afirmou ao programa oficial *Lions’ Den* que aquele foi um dos momentos mais marcantes de sua trajetória com a camisa da Inglaterra.

“Temos essa conexão agora, mas aquele momento, cantando ‘Wonderwall’ no estádio — todo mundo sabia a letra — foi realmente especial”, declarou.

Situação semelhante ocorreu com “Take Me Home, Country Roads”, de John Denver, que rapidamente se tornou uma das favoritas da torcida dos Estados Unidos. A adoção da música veio após críticas ao tradicional grito de guerra “USA! USA!”, considerado pouco criativo.

Para Andrew Lawn, a ausência de um canto característico reflete uma cultura esportiva mais comercial e dispersa. Segundo ele, a adoção da música de Denver ainda pode parecer um pouco artificial.

“Toda a cultura do futebol nos Estados Unidos ainda parece um pouco forçada no momento”, afirmou, destacando que o esporte ainda é relativamente novo no país.

Mesmo assim, ele acredita que a autenticidade pode surgir com o tempo.

“Mas, se isso permanecer, será um belo exemplo. E, daqui a 30 anos, se a música ainda estiver sendo cantada, aí sim haverá a sensação de que ela se tornou realmente autêntica”.



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