O que aconteceu aqui em Nova Jersey foi a consequência… O gol que o Endrick perdeu, talvez o pênalti que o Bruno Guimarães errou, isso tudo é consequência.
Quando o médico tem um paciente muito doente no hospital, ele sempre busca entender a causa, a causa daquela doença. Eu acho que está na hora de o futebol brasileiro fazer isso.
Um futebol com o talento que tem o nosso, com jogadores com os quais nós convivemos nos últimos 20 anos, não era pra ficar tanto tempo sem ganhar o Mundial.
Mas a gente lembra que ganhamos a Copa em 2002 e aí, em 2006, o Brasil foi para uma Copa do Mundo com uma grande festa lá em Weggis, na Suíça. Era mulher tirando a roupa no meio do campo, Ronaldo chegando 10 kg acima do peso…
Depois disso, nós vamos para uma Copa na África do Sul com o Dunga, que nunca tinha dirigido um clube, dirigindo a Seleção Brasileira. Vamos para uma Copa no Brasil em 2014, quando saímos tomando de 7 a 1.
Com o 7 a 1, vem o fim da era Ricardo Teixeira
E aí começa a ficar mais escancarado o problema, porque junto com o 7 a 1 no Brasil, tem o fim da era Ricardo Teixeira, numa Copa do Mundo em que o Brasil sofreu com problemas gravíssimos de corrupção. E o assunto corrupção foi o que levou Ricardo Teixeira a deixar a CBF.
Depois disso, entra José Maria Marin, que sai da CBF preso pela Interpol. Depois de Marin, vem Marco Polo Del Nero, que não pôde ir à Copa do Mundo da Rússia, porque se ele saísse do Brasil, ele poderia ser preso.
Depois vem o Rogério Caboclo, que deixa a CBF pela porta dos fundos, acusado de assediar sexualmente uma funcionária da CBF. Depois vem Edinaldo Rodrigues, que segue o caminho de uma gestão também com acusações profundas de corrupção. Afastado pela Justiça.
Futebol brasileiro vive desestruturação endêmica
Então, o que temos em campo hoje é a consequência de uma causa que é muito mais profunda, que é a desestruturação endêmica do futebol brasileiro.
Nós estamos num país que sequer é capaz de ter uma liga, enquanto a Itália tem, a França tem, a Inglaterra tem, a Alemanha tem… Ligas extremamente consolidadas, que geram milhões e milhões de reais para o futebol europeu, tirando os nossos principais jogadores.
Nós aqui não temos a capacidade de ter uma liga. Nós não temos a capacidade de ter presidente da CBF com estabilidade. O nosso último ciclo é a prova maior disso. Enquanto a CBF tinha uma briga intensa de poder com o presidente, com o Judiciário tendo que interferir numa entidade privada, o Brasil teve três técnicos.
Ciclo com quatro técnicos em quatro anos
Três técnicos antes da chegada do Ancelotti. Nós tivemos o Fernando Diniz, que foi técnico interino. Antes, tivemos o Ramon Menezes como técnico da Seleção Brasileira e depois tivemos o Dorival para então chegar um técnico de padrão internacional, que teve apenas um ano para comandar a Seleção Brasileira.
Então, tudo o que nós vimos em campo nos últimos tempos foi o retrato de uma Seleção Brasileira absolutamente destroçada por processos, uma CBF absolutamente desacreditada, comandada por pessoas que estiveram muito mais tempo nas páginas policiais do que nas páginas de esporte.
Talvez seja a hora do Brasil tratar a causa da doença e não apenas ficar pensando no doente. Doente está o futebol brasileiro.