Os primeiros painéis do segundo dia de audiência pública do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) foram marcados por “pragmatismo”, sem que a política e a participação do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro “contaminasse” o debate técnico, informou um negociador na condição de anonimato.

O fato surpreendeu participantes que, a princípio, estavam preocupados com uma eventual “fuga do objetivo” principal da audiência.

De acordo com fonte consultada pelo blog, o segundo dia repetiu a lógica do primeiro: perguntas específicas, que permitiram defesas pontuais e focadas em comércio, economia, inflação e impactos concretos das tarifas, sem grande espaço para discursos políticos. Destaque para a indústria de calçados, que conseguiu defender o peso do segmento.

A participação de Flávio Bolsonaro foi a única que fugiu do foco econômico e comercial ao enveredar por críticas de caráter político ao governo brasileiro, com menções a temas como corrupção, INSS e eleições. De acordo com a fonte, a abordagem do político causou “desconforto” porque destoou do padrão das perguntas feitas até aqui pelo USTR.

Apesar de o nível dos debates ter seguido “alto”, tanto do lado dos questionamentos quanto das defesas apresentadas pelos representantes brasileiros e do setor privado, dificilmente o Brasil deixará de ser taxado.

A expectativa do negociador é de convencer os representantes comerciais americanos em aumentar a lista de exceção. Segundo a fonte, a argumentação técnica deve elevar a pressão para isso.

Os relatos dos participantes ouvidos pela CNN em caráter reservado, também destacaram que o clima de ambos os lados é “medir os efeitos concretos de eventuais sobretaxas” sobre cadeias produtivas, custos industriais e preços ao consumidor nos Estados Unidos.

Destaques

Entre os destaques do segundo dia, interlocutores apontaram a participação do ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) Roberto Azevêdo, que falou em defesa da indústria e foi submetido, segundo os relatos, a questionamentos “extremamente técnicos” e detalhados.

Também recebeu avaliação positiva a apresentação da indústria calçadista. Representantes do setor brasileiro e interlocutores dos Estados Unidos defenderam que o Brasil ocupa uma posição estratégica na cadeia, seja pelo fornecimento de componentes industriais, seja pela confiabilidade comercial e por tecnologias específicas que, em alguns segmentos, não encontram substitutos imediatos.

Na prática, a percepção de quem acompanha a audiência é que o setor privado brasileiro tem conseguido sustentar uma linha de defesa fortemente ancorada em argumentos econômicos, mostrando como uma tarifa adicional pode pressionar custos, afetar cadeias de abastecimento e, em alguns casos, reduzir a competitividade da própria indústria americana.

Esse pragmatismo, segundo uma fonte, tem prevalecido dos dois lados da mesa: tanto entre os oficiais americanos quanto entre os representantes escalados para defender os interesses brasileiros e das empresas afetadas.

 



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