Entre as especulações sobre o que motivou a abertura dos Estados Unidos para negociar tarifas com o Brasil estão os esforços diplomáticos, as investidas de empresários e o esfriamento do embate político após a condenação de Jair Bolsonaro (PL).

Mas a única razão manifestada publicamente pelo próprio presidente Donald Trump é uma questão interna: a crise do poder de compra.

O termo “affordability” tem sido abordado à exaustão nos Estados Unidos em debates políticos, nos jornais, na televisão e também entre os americanos comuns, em conversas no elevador, nos cafés e bares.

Na tradução literal a palavra significa acessibilidade, mas seria algo mais próximo ao que chamamos no Brasil de custo de vida ou poder de compra.

O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, será recebido pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, nesta quinta-feira (13), em Washington, em meio a uma intensa discussão sobre a capacidade do governo republicano de melhorar o poder de compra dos americanos.

A discussão sobre o alto custo de vida, que está entranhada na política americana há anos, mais uma vez ficou no centro do debate nas eleições em Nova York, Nova Jersey e na Virgínia, na semana passada, e também foi um dos pontos mais atacados durante o shutdown mais longo da história dos Estados Unidos.

A prova de que a questão incomoda o governo Trump está nas próprias sinalizações do presidente americano e de seus aliados.

Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, disse na quarta-feira (12), em entrevista à Fox News, que os americanos verão “anúncios substanciais” nos próximos dias com o objetivo de reduzir os preços de produtos como café, bananas e outros itens não cultivados no país.

Ele acrescentou que “o povo americano começará a se sentir melhor”.

Um dia antes, Trump também disse que planejava reduzir as tarifas sobre o café para diminuir os preços. “Café, vamos reduzir algumas tarifas. Vamos importar mais café”, afirmou o republicano em entrevista concedida na terça-feira (11) à Fox News. “Vamos resolver tudo isso muito rapidamente, muito facilmente”, acrescentou.

As tarifas de Trump sobre o Brasil (50%), a Colômbia (10%) e o Vietnã (20%), os três maiores fornecedores de café aos Estados Unidos, se combinaram a um clima extremamente volátil no país, que corroeu a colheita de uma cultura difícil de se cultivar e intensiva em mão-de-obra no país, um processo que vem acontecendo há alguns anos.

Como resultado, os preços do café para o consumidor subiram cerca de 20% em relação ao ano passado.

Uma pesquisa da CNN, divulgada na semana passada, revelou que 61% dos americanos acreditam que as políticas de Trump “pioraram as condições econômicas do país”. Na gestão de Joe Biden, esse percentual oscilou a maior parte do tempo entre 50% a 55% e no pior momento atingiu, no máximo, 58%.

O argumento do “affordability”, que muitos analistas consideram que rendeu a Trump sua eleição em 2024, está voltando para assombrá-lo.

Os americanos estavam insatisfeitos com a economia e, até o ano passado, culpavam os democratas. Mas eles continuam insatisfeitos e, agora, culpam os republicanos.

Essa é a diferença de estar no poder, mas com um adendo: Donald Trump sempre foi visto como um homem de negócios, e a economia sempre foi principal trunfo.

E é exatamente a tentativa de não perder o seu principal “asset” que motiva Trump a abrir as portas para negociar com o Brasil.



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