Se os 25 anos de governo expansionista de Vladimir Putin ensinaram algo ao Ocidente, é que o presidente russo não deve ser levado ao pé da letra.

Isso não impediu altos funcionários dos EUA de continuarem a acreditar nas declarações do líder russo. A maior concepção equivocada do presidente Donald Trump é acreditar que Putin deseja a paz na Ucrânia, apesar das evidências esmagadoras em contrário.

Agora, a equipe de Trump corre o risco de cair novamente vítima de sua própria credulidade.

Assim como Moscou está ajudando a alvejar drones que ameaçam tropas dos EUA na guerra contra o Irã, segundo uma reportagem da CNN, a administração americana pode flexibilizar mais sanções destinadas a enfraquecer a ‐mquina de matar‑ de Putin na Ucrânia. A esperança seria aliviar o impasse político de Trump em relação aos preços do petróleo.

Seria uma reviravolta extraordinária se Putin surgisse como o primeiro vencedor da crise crescente no Oriente Médio porque Trump abalou os mercados globais de energia ao lançar sua própria guerra.

Putin se gabou do choque nos preços do petróleo em uma reunião no Kremlin há dois dias, segundo o especialista em petróleo e vencedor do Prêmio Pulitzer, Daniel Yergin. ‐Vladimir Putin ganhou na loteria aqui. Ele é o maior vencedor até agora porque o preço do petróleo subiu muito para financiar sua guerra. E as sanções estão sendo retiradas‑, disse Yergin, vice-presidente da S&P Global, Erin Burnett, da CNN, na quarta-feira (11).

Enviado russo participa de reuniões na Flórida

No mais recente melodrama entre EUA e Rússia na era Trump, um alto funcionário russo se reuniu com a equipe de Trump na Flórida na quarta-feira.

O enviado especial Kirill Dmitriev encontrou-se com o enviado especial Steve Witkoff; com o genro do presidente, Jared Kushner; e com o assessor sênior da Casa Branca, Josh Gruenbaum.

‐As equipes discutiram uma variedade de tópicos e concordaram em manter contato‑, disse Witkoff em um comunicado que não abordou nenhuma das questões urgentes entre EUA e Rússia.

Mas antes da reunião, Witkoff minimizou os relatos de que os russos estariam fornecendo ao Irã informações sobre os movimentos de tropas, navios e aeronaves dos EUA. Ele disse à CNBC na terça-feira que Moscou havia negado tal comportamento durante a ligação de Trump com Putin no dia anterior. ‐Então, você sabe, podemos levar a palavra deles em consideração. Mas eles disseram isso‑, afirmou.

No ‐60 Minutes‑ da CBS, no domingo (8), o secretário de Defesa Pete Hegseth minimizou os riscos para as tropas americanas diante das atividades russas, insistindo: ‐Ninguém está nos colocando em perigo.‑

Mas o enredo se complicou na quarta-feira, quando Nick Paton Walsh, da CNN, informou com exclusividade que a Rússia estava ajudando o Irã com táticas de drones aprendidas na Ucrânia para atingir alvos dos EUA e do Golfo. Este é o tipo de cooperação mais explícito e preocupante até agora entre os aliados do eixo anti-EUA, disse um funcionário de inteligência ocidental.

Também na quarta-feira, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, que enviou especialistas em drones para ajudar as forças americanas a combater os drones Shahed iranianos, afirmou que os russos estavam ajudando a República Islâmica não apenas com veículos aéreos não tripulados, mas também com mísseis e defesas aéreas.

A oferta de Volodymyr Zelensky é o sinal mais recente de como os duelos amargos de drones entre Ucrânia e Rússia têm transformado o caráter da guerra. Essa dinâmica agora se expandiu para um novo teatro, à medida que armas de baixo custo ameaçam a força militar mais sofisticada do mundo.

O jogo estratégico de Putin

As divulgações sobre o uso de drones pela Rússia também destacam o jogo complexo que Vladimir Putin desempenha ao explorar crises globais, mesmo enquanto cultiva sua relação com Donald Trump para avançar seus objetivos na Ucrânia.

Trump espera que a guerra contra o Irã termine em breve, à medida que a temível ofensiva dos EUA e de Israel contra a República Islâmica é complicada pela crise no estreito bloqueado de Ormuz, um corredor vital para o transporte de petróleo.

O consequente aumento nos preços do petróleo ameaça a já frágil posição de Trump e levou sua administração a buscar maneiras de reagir.

Washington vinha conseguindo pressionar a Índia para reduzir sua dependência do petróleo russo, a fim de forçar Moscou a encerrar a guerra na Ucrânia. Mas na semana passada concedeu uma isenção de 30 dias para permitir que as refinarias de Nova Délhi comprassem petróleo da frota fantasma da Rússia.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse à Fox Business na sexta-feira (6): ‐Podemos suspender ainda mais as sanções sobre o petróleo russo.‑

O comentário dele gerou um pedido de investigação e convocação de depoimento por parte de democratas do Comitê Bancário do Senado, conforme noticiado inicialmente pelo Punchbowl News.

Um inesperado bônus com o petróleo é apenas uma das maneiras pelas quais Vladimir Putin pode se beneficiar da guerra no Irã. Os Estados Unidos e seus aliados europeus podem desviar recursos e armas que hoje apoiam o esforço de guerra de Kiev. E enquanto a equipe de Trump se reúne com o enviado de Putin, os aliados europeus ainda estão se recuperando da fúria do presidente americano por sua relutância em se juntar ao ataque ao Irã.

Tudo isso alimenta a estratégia de longo prazo de Putin de fragmentar a coesão entre os estados da Otan.

Esses benefícios podem compensar parcialmente os golpes à política externa russa, caso o regime iraniano seja enfraquecido ou eventualmente derrubado. A Rússia perdeu outro aliado este ano com uma operação das forças especiais dos EUA que derrubou o líder venezuelano, Nicolás Maduro, em janeiro.

A Rússia tem motivos fortes para ajudar o Irã:

  • Isso permite à ela se vingar depois que os EUA ajudaram a Ucrânia com inteligência, mesmo que essa cooperação tenha diminuído sob a atual administração de Trump.

  • Se Moscou ajudar o Irã a prolongar a guerra, os EUA terão menos capacidade de pressionlo nas negociações de paz sobre a Ucrânia.

  • Uma disrupção prolongada nas rotas de transporte de petróleo do Golfo pode manter os preços do petróleo elevados — gerando receitas extras para financiar o esforço de guerra russo contra a Ucrânia.

  • E se as forças dos EUA e seus aliados ficarem sobrecarregadas no Oriente Médio, podem surgir novas oportunidades estratégicas para a Rússia.

A ajuda russa é valiosa para Teerã, por sua vez, muito além do valor de propaganda de mostrar que o Irã não está enfrentando sozinho a fúria dos EUA e de Israel.

As mortais investidas da Rússia contra Kiev e outras cidades permitiram que seus especialistas refinassem formações e táticas, muitas vezes usando dezenas de drones simultaneamente.

Essa expertise poderia ajudar Teerã a enfrentar as defesas aéreas dos EUA e do Golfo. Moscou também dispõe de satélites usados para alvos de precisão.

O ato de equilíbrio de Putin

Ainda assim, Putin precisa caminhar em uma linha tênue. Seu interesse central é vencer a guerra na Ucrânia, em parte prolongando as negociações de paz para permitir que suas forças terrestres conquistem novos territórios. Ele não pode se dar ao luxo de um confronto direto com os EUA sobre o Irã ou uma confrontação militar.

O Kremlin não comentou os últimos relatos de que estaria ajudando diretamente Teerã com seu programa de drones, o que representa mais um constrangimento para a administração de Trump.

A empatia do presidente com o líder russo ajudou a definir ambas as suas administrações.

Trump certa vez disse que ele e Putin eram vítimas de uma ‐caça às bruxas‑ devido às avaliações da comunidade de inteligência de que Moscou interferiu nas eleições de 2016.

Witkoff, a face das tentativas — até agora frustradas — da administração de levar paz à Ucrânia, seguiu a linha de seu chefe. Ele frequentemente sai de reuniões com Putin soando como o líder russo. ‐Eu não considero Putin um cara mau‑, disse ele no ano passado sobre um homem que lançou uma invasão que matou milhares de ucranianos.

Além disso, houve uma transcrição de uma ligação telefônica revisada e transcrita pela Bloomberg no ano passado, que mostrava Witkoff orientando um alto funcionário russo sobre como falar com Trump.

Um plano de paz de 28 pontos, elaborado por Witkoff no ano passado, poderia ter sido escrito por Moscou e exigiu semanas de ajustes pelo secretário de Estado Marco Rubio antes de poder servir como base para negociações.

Os republicanos muitas vezes se veem forçados a caminhar na ponta de uma agulha política em relação ao relacionamento de Trump com Putin.

O senador do Kansas, Roger Marshall, disse CNN, na quarta-feira, que a situação global de energia em meio à guerra no Irã era ‐muito delicada‑. Ele acrescentou: ‐Acho que a suspensão das sanções sobre o petróleo na Índia, permitindo a compra de petróleo russo, acho que isso está fazendo algo de bom para os EUA neste momento.‑

Mas continuou: ‐Claro, eu também não tenho simpatia pela Rússia… Acho que, tão rapidamente quanto tiramos essas sanções, podemos colocá-las de volta.‑

Isso pode levar algum tempo, especialmente considerando que se espera que a turbulência nos mercados de energia dure semanas, mesmo que o Estreito de Ormuz reabra em breve.

Imagens impressionantes, na quarta-feira, de dois petroleiros em chamas no Golfo após suspeitos ataques iranianos, levantam a possibilidade de uma crise ainda mais profunda.

A menos que Trump consiga retirar os Estados Unidos dessa situação rapidamente, ele pode compartilhar algo mais com Putin: ter iniciado uma guerra que subestimou a capacidade do adversário de reagir e que se prolonga mais do que ele esperava.



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