Hoje Estados Unidos e Israel lançaram ataque conjunto contra o Irã. Não é o primeiro: em junho de 2025, Washington já havia bombardeado instalações nucleares iranianas em uma operação mais cirúrgica.

O que ocorre agora é qualitativamente diferente: mais amplo, mais declarado, com objetivos que incluem explicitamente o aparato militar iraniano e sua liderança política. A pergunta que se impõe, nesse momento, não é apenas moral; é analítica. O que explica, estruturalmente, essa decisão?

Seis fatores convergem e nenhum deles, isolado, seria suficiente para justificar a ação. É a sobreposição deles que cria a lógica.

O primeiro é nuclear. O programa iraniano havia reduzido o breakout time (o intervalo entre a decisão política de construir uma bomba e a disponibilidade do material físsil necessário) a níveis considerados inaceitáveis por Washington.

Após o colapso do JCPOA e rodadas sucessivas de sanções sem efeito dissuasório real, Teerã continuou enriquecendo urânio. Para os Estados Unidos, um Irã com capacidade nuclear militar não é apenas uma ameaça pontual, é uma mudança estrutural e permanente no equilíbrio regional que tornaria todas as interações futuras mais caras, mais arriscadas e menos controláveis.

O ataque de junho de 2025 foi a primeira tentativa de reverter esse relógio. O de hoje, que ocorreu em meio a negociações diplomáticas truncadas, sugere que a tentativa anterior foi insuficiente.

O segundo fator é a dissuasão corroída. O Irã projeta poder há décadas por meio de uma arquitetura de proxies (Hezbollah no Líbano, milícias no Iraque, Houthis no Iêmen), que permite influência regional sem responsabilidade direta.

Quando essa estrutura opera de forma contínua sem resposta proporcional, o sinal que se consolida no campo adversário é o da impunidade. Um ataque ao território iraniano funciona, dentro da lógica norte-americana, como tentativa de restaurar o que a teoria estratégica chama de credibilidade coercitiva: a percepção de que determinadas linhas têm custo real e mensurável.

O terceiro vetor é Israel. Tel Aviv trata um Irã nuclear como ameaça existencial, não como retórica diplomática, mas como premissa operacional. A coordenação de hoje, que incluiu tentativas de eliminar a liderança iraniana, evidencia que os dois países agiram com objetivos convergentes, ainda que não idênticos.

Israel quer destruir capacidade militar; Washington parece querer algo mais amplo: mudança de comportamento ou, em cenário mais ambicioso, mudança de regime. A arquitetura de segurança americana no Oriente Médio não funciona se seu principal aliado regional opera sob ameaça existencial percebida.

O quarto fator transcende a região. Em ambiente multipolar e competitivo, a disposição de usar força militar tem valor demonstrativo que vai muito além do teatro de operações imediato. China observa Taiwan com atenção ao comportamento norte-americano em outras frentes.

Rússia faz o mesmo em relação à Europa Oriental. Quando Washington hesita de forma prolongada, o custo de conter outras ambições regionais aumenta. Nesse sentido, atacar o Irã é também uma comunicação endereçada a audiências que não estão no Oriente Médio.

O quinto elemento é doméstico. Trump anunciou a operação com linguagem que mistura segurança nacional, apelo direto à população iraniana e promessa de devastação do aparato militar de Teerã. Há claramente uma audiência interna nessa comunicação.

Decisões de força raramente são tomadas sem considerar o capital político que geram, ou que tentam recuperar. Isso não reduz a decisão a cálculo eleitoral, mas ignorar essa dimensão seria análise incompleta, sobretudo em um momento em que o presidente enfrente forte crise de popularidade doméstica.

Por fim, há o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado maritimamente no mundo. O Irã controla sua margem norte e tem capacidade de interferir nessa rota. Uma crise ali não afeta apenas preços de combustível, afeta cadeias logísticas globais, balanças de pagamento e estabilidade política em países dependentes de importação energética. Garantir aquele corredor é interesse norte-americano com dimensão econômica e geopolítica simultâneas.

Esses seis fatores não constituem, evidentemente, justificativa moral para a operação, mas constituem a estrutura de incentivos que a produziu. Compreender essa estrutura não é aprovar a decisão, mas recusar explicações simplificadas.

Guerras raramente acontecem por uma causa. Acontecem quando múltiplas lógicas convergem no mesmo ponto, ao mesmo tempo. É o que está diante dos nossos olhos nesse momento.



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