A recente intensificação das restrições ao fornecimento de petróleo a Cuba recolocou no centro do debate uma questão estrutural: até que ponto a ausência de um programa consistente de etanol combustível ampliou a vulnerabilidade energética da ilha?

O tema costuma ser tratado de forma simplista, como se faltasse visão estratégica. A história é mais complexa. Durante décadas, Cuba operou sob uma lógica geopolítica distinta da brasileira.

Integrada ao bloco soviético, tinha mercado garantido para seu açúcar e suprimento energético relativamente estável. Nesse contexto, investir em etanol para o transporte interno não era prioridade evidente.

O Brasil seguiu outro caminho. O Proálcool, criado em 1975, nasceu em resposta ao choque do petróleo, mas também como instrumento para absorver excedentes do setor sucroalcooleiro diante da queda dos preços internacionais do açúcar.

A política combinou segurança energética com estabilização agrícola. Ao longo do tempo, consolidou-se um modelo integrado: mistura obrigatória de etanol anidro à gasolina — hoje em torno de 27% — e ampla oferta de etanol hidratado, reforçada pela frota flex a partir de 2003.

Essa engrenagem transformou a cana em ativo macroeconômico. O etanol passou a influenciar a balança comercial, inflação e planejamento energético. O consumidor tornou-se parte do sistema, arbitrando entre gasolina e biocombustível conforme o preço relativo.

Cuba enfrentou, por sua vez, uma ruptura abrupta nos anos 1990 com o fim da União Soviética. A escassez de insumos e capital levou à reestruturação do setor açucareiro no início dos anos 2000, com fechamento de usinas consideradas pouco eficientes.

À luz da crise fiscal da época, concentrar recursos em áreas mais urgentes pode ter sido decisão vista como racional, ainda que tenha reduzido a capacidade industrial necessária para sustentar um programa de etanol em escala.

Houve intercâmbio técnico entre especialistas cubanos e brasileiros em temas ligados à cana, refletindo reconhecimento do avanço tecnológico do Brasil.

Contudo, cooperação técnica não substitui financiamento, mercado interno robusto e arcabouço regulatório estável — elementos indispensáveis para transformar potencial agrícola em política energética efetiva.

Hoje, diante de dificuldades recorrentes para garantir petróleo e derivados, o debate ganha nova dimensão. Um programa de etanol não eliminaria a dependência externa, mas poderia ter funcionado como amortecedor parcial, reduzindo a pressão sobre importações em momentos críticos.

Brasil e Cuba responderam a choques distintos com instrumentos moldados por suas circunstâncias. Nos anos 1970, o Brasil enfrentava crise cambial, alta do petróleo e excedentes agrícolas; transformou o etanol em política de Estado, articulando energia, indústria e campo.

Cuba, integrada a um arranjo geopolítico que garantia mercado para o açúcar e fornecimento de petróleo, priorizou estabilidade produtiva e receitas externas dentro daquele sistema. Em cada caso, as escolhas eram coerentes com os incentivos e restrições da época.

Décadas depois, os resultados mostram trajetórias diferentes. O Brasil consolidou uma matriz de transporte parcialmente amortecida por biocombustíveis. Cuba, ao depender majoritariamente de combustíveis fósseis importados, ficou mais exposta a interrupções externas.

Não se trata de hierarquizar decisões passadas, mas de observar como estratégias nacionais — formuladas sob contextos geopolíticos e econômicos específicos — produzem graus distintos de resiliência quando o ambiente internacional se transforma.



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