A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) enviou nesta sexta-feira (30) uma carta aberta ao presidente Lula na qual aponta dificuldades na carreira e pede a criação de um fundo para combate ao crime organizado.
“A Polícia Federal tem recebido, de forma contínua, novas atribuições legais e operacionais, sem a correspondente recomposição orçamentária. Soma-se a isso a ausência de prerrogativas e garantias institucionais adequadas e a crescente evasão de profissionais altamente qualificados, fatores que podem comprometer, a médio e longo prazos, a eficiência e a independência técnica da instituição“, diz a carta.
Eles dizem ainda que “a carreira de Delegado de Polícia Federal, em especial, enfrenta uma preocupante perda de atratividade” e que “tal fenômeno é impulsionado por assimetrias significativas nas condições de trabalho, nas prerrogativas funcionais e na valorização institucional, quando comparadas a carreiras jurídicas de complexidade, responsabilidade e relevância equivalentes”.
A associação afirma também que “não se mostra razoável que a Autoridade Policial responsável por liderar investigações contra as mais graves ameaças à República e que deve atuar com independência técnica, resistindo a pressões de toda ordem se encontre em posição de desvantagem institucional em relação a carreiras e órgãos congêneres, inclusive no âmbito do próprio Poder Executivo“.
Ao final, sugere a criação do FUNCOC (Fundo Nacional de Combate às Organizações Criminosas), uma proposta já apresentada ao Ministério da Justiça e que visa “consolidar uma base orçamentária permanente destinada ao fortalecimento institucional, à valorização da carreira e à retenção de talentos na Polícia Federal”.
Explica que o fundo “racionaliza a destinação de recursos provenientes da própria descapitalização do crime organizado, revertendo bens apreendidos e confiscados em favor da sociedade”.
Fala ainda que “estabelece mecanismos estáveis de financiamento para a modernização das capacidades investigativas, a estruturação de unidades especializadas e o investimento no elemento central da atividade policial: o capital humano“.
“A ausência de investimento adequado, de proteção legal e de políticas de valorização resulta, inevitavelmente, na redução da capacidade técnica da Polícia Federal e na concessão de vantagem estratégica à criminalidade organizada. Nesse sentido, o FUNCOC apresenta resposta moderna e responsável, ao prever instrumentos de reconhecimento por desempenho, como a Gratificação de Eficiência Institucional (GEI), vinculando a valorização profissional ao incremento de resultados e à recuperação de ativos ilícitos, com racionalidade fiscal e elevado retorno social”, complementa.
Veja a íntegra da carta
CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva,
No ano de 2026, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) celebra 50 anos de atuação institucional em defesa do Estado brasileiro e da sociedade. Nesse contexto simbólico e de elevada responsabilidade histórica, recebemos com respeito as recentes manifestações de Vossa Excelência acerca do enfrentamento ao crime organizado, especialmente aquelas que reconhecem e enaltecem o papel desempenhado pela Polícia Federal.
Tal posicionamento converge com a diretriz estratégica reiteradamente destacada pelo Diretor-Geral da Polícia Federal, no sentido de que o efetivo enfraquecimento das organizações criminosas decorre, sobretudo, de sua descapitalização e da asfixia de seu poder econômico. Enfrentar estruturas criminosas cada vez mais sofisticadas exige, portanto, que o Brasil disponha de instituições igualmente robustas, modernas, bem estruturadas e resilientes.
Essa estratégia tem produzido resultados concretos e expressivos. Apenas nos anos de 2024 e 2025, a Polícia Federal devolveu à sociedade aproximadamente R$ 6,9 bilhões e R$ 9,5 bilhões, respectivamente, por meio da recuperação de bens e valores oriundos do crime organizado. Em 2025, foram instaurados 44.091 inquéritos policiais, com índice de solução de 85,5%, patamar compatível com o desempenho das melhores polícias do mundo. No mesmo período, a instituição deflagrou 3.712 operações, realizou 9.192 prisões em flagrante, reduziu o tempo médio de duração dos inquéritos e ampliou significativamente sua atuação nas fronteiras e na Amazônia Legal. Destacou-se, ainda, no combate aos crimes cibernéticos e no fortalecimento da cooperação internacional. Nesse contexto, merece especial menção o fato de que, pela primeira vez na história, o Brasil preside a Interpol, por meio de um Delegado de Polícia Federal, o que evidencia o prestígio e a credibilidade internacional alcançados pelo país na área da segurança pública.
Todavia, Senhor Presidente, é nosso dever institucional alertar para desafios estruturais que ameaçam a sustentabilidade desses resultados. A Polícia Federal tem recebido, de forma contínua, novas atribuições legais e operacionais, sem a correspondente recomposição orçamentária. Soma-se a isso a ausência de prerrogativas e garantias institucionais adequadas e a crescente evasão de profissionais altamente qualificados, fatores que podem comprometer, a médio e longo prazos, a eficiência e a independência técnica da instituição.
A carreira de Delegado de Polícia Federal, em especial, enfrenta uma preocupante perda de atratividade. Tal fenômeno é impulsionado por assimetrias significativas nas condições de trabalho, nas prerrogativas funcionais e na valorização institucional, quando comparadas a carreiras jurídicas de complexidade, responsabilidade e relevância equivalentes. Nos últimos três anos, ingressaram na Polícia Federal 104 novos delegados, enquanto 50 autoridades policiais deixaram a instituição para assumir outros cargos públicos. Uma carreira historicamente almejada como projeto profissional de longo prazo por operadores do Direito corre, assim, o risco de se transformar em mero cargo de transição.
Essa realidade impacta diretamente a capacidade institucional da Polícia Federal. Quanto maior a retenção de talentos, maior é a qualificação técnica disponível para conduzir investigações de elevada complexidade e alto valor estratégico para o Estado brasileiro. A evasão, por outro lado, implica desperdício de recursos públicos investidos na formação especializada de profissionais que não permanecem na instituição, além de gerar instabilidade nos quadros e perda de memória organizacional.
Outro dado igualmente alarmante reforça esse diagnóstico. Em 2021, os concursos da Polícia Federal registraram cerca de 321 mil inscritos. Em 2025, esse número caiu para 218 mil candidatos, representando uma redução de aproximadamente um terço na atratividade. O enfrentamento ao crime organizado transnacional exige que a Polícia Federal seja uma instituição altamente desejada, capaz de atrair e reter os profissionais mais qualificados do país. É justamente a excelência de seus quadros que sustenta os resultados obtidos ao longo dos anos.
Não se mostra razoável que a Autoridade Policial responsável por liderar investigações contra as mais graves ameaças à República e que deve atuar com independência técnica, resistindo a pressões de toda ordem se encontre em posição de desvantagem institucional em relação a carreiras e órgãos congêneres, inclusive no âmbito do próprio Poder Executivo.
Com o objetivo de reverter esse cenário, identificamos como política de Estado, de caráter duradouro, objetivo e estruturante, a proposta apresentada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, por ocasião das celebrações do Dia do Policial Federal, em 17 de novembro último, no auditório da sede da Polícia Federal: a criação do Fundo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (FUNCOC). A iniciativa visa consolidar uma base orçamentária permanente destinada ao fortalecimento institucional, à valorização da carreira e à retenção de talentos na Polícia Federal.
O FUNCOC racionaliza a destinação de recursos provenientes da própria descapitalização do crime organizado, revertendo bens apreendidos e confiscados em favor da sociedade. Ao mesmo tempo, estabelece mecanismos estáveis de financiamento para a modernização das capacidades investigativas, a estruturação de unidades especializadas e o investimento no elemento central da atividade policial: o capital humano. A ausência de investimento adequado, de proteção legal e de políticas de valorização resulta, inevitavelmente, na redução da capacidade técnica da Polícia Federal e na concessão de vantagem estratégica à criminalidade organizada. Nesse sentido, o FUNCOC apresenta resposta moderna e responsável, ao prever instrumentos de reconhecimento por desempenho, como a Gratificação de Eficiência Institucional (GEI), vinculando a valorização profissional ao incremento de resultados e à recuperação de ativos ilícitos, com racionalidade fiscal e elevado retorno social.
A aprovação do FUNCOC, com pequenos ajustes já encaminhados pela ADPF ao Diretor-Geral da Polícia Federal, permitirá ao Governo Federal transmitir uma mensagem clara e inequívoca à sociedade brasileira: o produto do crime será utilizado no combate ao próprio crime. O fortalecimento das forças federais, eixo central da atual orientação estratégica do Governo, passa necessariamente pela criação de instrumentos que invistam de forma consistente nas instituições policiais e em seus profissionais.
Diante disso, respeitosamente solicitamos que Vossa Excelência promova o envio imediato do Projeto de Lei instituidor do FUNCOC ao Congresso Nacional e mobilize os esforços do Governo Federal para sua célere apreciação e aprovação, considerando os prazos exíguos impostos pela legislação eleitoral. Tal iniciativa constituirá um legado duradouro de seu governo, assegurando que a Polícia Federal disponha, de forma permanente, da estrutura e do capital humano indispensáveis para vencer o desafio histórico de enfrentar o crime organizado.
Respeitosamente,
Edvandir Paiva
Presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal