O ano começou com inúmeras análises e pesquisas sobre candidatos declarados e outros potenciais à Presidência da República. No entanto, convém olhar não apenas para 2026, mas também para 2027 e os anos subsequentes que o vencedor nas urnas terá que enfrentar.
Isso porque além dos tradicionais desafios nacionais como a segurança pública, saúde e educação, o ocupante do Palácio do Planalto terá que lidar com um tema espinhoso e cada vez mais incômodo: a dívida pública do país.
Ela inclui as obrigações do governo federal, de governos estaduais e municípios, tendo alcançado um patamar recorde de 78,8% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2025.
Trata-se de uma significativa evolução a partir dos níveis de dez anos antes, quando estava em 65,5% do PIB. Além disso, a conta de juros da dívida bateu o impressionante R$ 1 trilhão no ano passado.
Pelos critérios do FMI (Fundo Monetário Internacional), a dívida pública bruta brasileira atingiu 89% do PIB em meados do ano passado, a maior entre os países emergentes (média de 72,7%) e atrás apenas da China, com 93,4%. É que os cálculos do FMI são diferentes e incluem títulos públicos na carteira do Banco Central para calcular a dívida, enquanto o órgão brasileiro não os leva em conta.
Evidentemente não serve de consolo, mas o fato é que dívida pública se transformou em problema generalizado mundo afora. Dados recentes do FMI apontam que a dívida global permanece em patamares muito elevados, situando-se agora em US$ 251 trilhões, quase 230% do PIB do planeta de 2025, estimado em US$ 110 trilhões.
Maior economia, os Estados Unidos também lideram o ranking das dívidas: US$ 38,27 trilhões, seguido pela China, com US$ 18,68 trilhões, Japão (US$ 9,83 trilhões), Reino Unido (US$ 4,09 trilhões) e França (US$ 3,92 trilhões).
Os EUA viram as dívidas de governo aumentarem no ano passado de 119% para 121% do PIB, enquanto a China viu uma evolução de 82% para 88% nessa rubrica.
Em comum, todos os países com crescimento acentuado no endividamento operam com significativos déficits fiscais (despesas maiores que as receitas).
Eles são impulsionados sobretudo por políticas de gastos estatais para sustentar o ritmo da economia, maiores despesas com saúde (devido ao envelhecimento populacional) e investimentos em defesa em um ambiente internacional cada vez mais instável.
O IIF (Institute of International Finance), associação global do setor financeiro, aponta que ondas populistas em vários países têm impedido que governos adotem medidas restritivas para corrigir desequilíbrios fiscais e diminuir os déficits.
Resultado dessa postura é que a necessidade de financiamento de várias economias hoje é maior do que foi durante os tempos da pandemia.
Os débitos governamentais continuam avançando para financiar os caixas das administrações federais, mas um fato positivo é que essa bola de neve tem sido compensada em boa medida pela redução gradativa dos empréstimos tomados por empresas.
Hoje de US$ 151,8 trilhões, a dívida privada caiu para pouco abaixo de 143% do PIB global, o menor nível em dez anos. Números das duas maiores economias nesse contexto: a dívida privada caiu 4,5 pontos percentuais nos Estados Unidos, mas cresceu 6 pontos percentuais na China.
Em alguns mercados emergentes relevantes, segundo o FMI, o endividamento privado também aumentou, como no caso de Brasil, Índia e México.
Esses três países, tecnicamente considerados como de “média renda”, e diversas outras economias de “baixa renda” situadas em diferentes continentes têm nas exportações fonte vital de recursos para pagar suas dívidas, investir e gerar empregos.
Por isso mesmo é preocupante a escalada do protecionismo comercial, que segundo o FMI pode reduzir a produção econômica global em até 7% a longo prazo.