Com mais de 10 milhões de mulheres à frente de negócios no país, o empreendedorismo feminino vem se consolidando como um importante motor da economia brasileira.
Presente em diversos setores — especialmente em áreas como alimentação, beleza e cuidados —, esse movimento é impulsionado por mulheres que transformam iniciativa em liderança e protagonismo.
É um cenário motivado, especialmente, pela maternidade. De acordo com dados da RME (Rede Mulher Empreendedora), cerca de 77% das mulheres empreendedoras abrem o próprio negócio após a maternidade, o que demonstra um grande gargalo na flexibilização de espaços de trabalho convencionais para mulheres mães no mercado de trabalho convencional.
Além disso, elas buscam empreender em suas áreas de domínio, e frequentemente motivadas pela necessidade.
“O empreendedorismo por necessidade é o grande motor do empreendedorismo feminino no Brasil”, comenta Ana Fontes, fundadora da RME, principal rede de apoio a empreendedoras no Brasil.
A Rede Mulher Empreendedora nasceu em 2010 como uma pequena iniciativa digital. Em um blog alimentado por Ana, mulheres líderes e aspirantes a empreendedoras tinham acesso a conteúdo informativo e conexão, fruto da experiência dela no mercado corporativo e em um projeto conduzido pelo Goldman Sachs voltado à temática.
15 anos depois, a Rede, já estruturada, soma mais de 9 milhões de mulheres empreendedoras impactadas.
“Colocamos o empreendedorismo feminino no mapa”, comenta a líder, que observa um avanço na pauta nos últimos anos. “Agora, a sociedade percebe que este é um tema que merece ser debatido.”
A especialista também aponta para a busca pelo desenvolvimento como uma importante guinada no perfil de mulheres empreendedoras na atualidade.
“Elas estão cada vez mais dispostas a buscar conhecimento, fazer parte de redes de relacionamento e se especializar em novas tecnologias, e isso é uma melhoria muito grande”, diz.
Mas, apesar dos avanços significativos, ainda há gargalos a serem enfrentados, como a diversidade de gênero e o acesso a capital.
Na avaliação de Ana, avançar no apoio a mulheres empreendedoras depende, em boa medida, da progressão conjunta de políticas públicas e privadas que envolvem verticais como apoio educacional, estrutural e financeiro.
Além disso, defende que é preciso ampliar programas públicos existentes de acesso ao crédito, incentivar acordos comerciais entre grandes empresas e pequenos negócios liderados por mulheres e também reforçar atributos deste público em potencial, especialmente para o mercado financeiro.
“É preciso fazer com que a ponta, que é o sistema financeiro, reconheça o potencial econômico das mulheres”, afirma.
Confira alguns trechos da entrevista
Apesar dos avanços, na sua avaliação, quais ainda são as barreiras estruturais que impedem mulheres de empreender e crescer em escala no país?
“Uma delas é o acesso à capital. Não falo apenas do crédito, que é apenas um dos meios para isso. Mas sim do crédito, microcrédito, linhas de investimento, anjos-investidores: isso tudo ainda é muito dificultado para as mulheres.
Em segundo lugar, o acesso ao mercado. Locais onde possam vender seus produtos e serviços, o que ainda é um grande desafio para que mulheres empreendam. Por isso defendemos, por exemplo, a criação de políticas de compras inclusivas.
Um terceiro ponto é a questão da economia do cuidado. Ser responsáveis pelos cuidados com os filhos, com a casa, com os idosos, tudo isso dá às mulheres menos horas para dedicar aos negócios e, com isso, diminuem as chances desses negócios crescerem.
Por fim, o acesso à educação e inovação, que são fundamentais. Percebemos aqui na Rede o quanto faz diferença termos uma curadoria com direcionamentos sobre temas que façam sentido para cada momento do negócio.”
De que forma empresas do setor privado podem atuar de maneira mais efetiva para fortalecer negócios liderados por mulheres? Quais iniciativas — como acesso a mercado, capacitação, financiamento ou redes de mentoria — tendem a gerar maior impacto?
“O setor privado tem um papel fundamental. Ele pode, por exemplo, comprar de pequenos negócios liderados por mulheres — e com isso dá acesso ao mercado. Temos um programa aqui na rede que se chama RME conecta, que seleciona, qualifica e certifica empreendedoras para venderem para grandes empresas.
Sabemos que é uma dificuldade para uma pequena empresa vender para uma grande empresa pois envolve, além da burocracia e processos internos, a questão do pagamento.
O segundo ponto é as grandes empresas, junto de organizações como a nossa, criarem projetos de aceleração de negócios liderados por mulheres. Temos aqui mais de 30 projetos com empresas como Google, Ambev e Itaú.
Grandes empresas podem também acelerar seu entorno para desenvolver as comunidades no entorno e garantir a autonomia econômica financeira de mulheres. Essas são algumas possibilidades, mas também existem outras como mentorias e aceleração de negócios.
Criamos no ano passado um fundo filantrópico que se chama FIR, que concede capital a mulheres que têm negócios especialmente na região Norte e Nordeste para que elas se desenvolvam, então as empresas também podem aportar nesse fundo.”
Já no setor público, quais políticas ou programas são mais estratégicos para fomentar o empreendedorismo feminino? O que os governos podem fazer para ampliar o acesso das mulheres a crédito, qualificação e oportunidades de crescimento?
“No setor público tem algumas políticas que poderiam ser implementadas. É o caso da política de compras inclusivas, que destina um percentual das compras públicas e privadas para pequenos negócios liderados por mulheres. Isso muda o jogo.
Uma segunda ação estratégica são as linhas de desenvolvimento para inovação, algo que governo federal, estadual e municipal possuem. Hoje não existe nenhuma política inclusiva para destinar parte dessas linhas a pequenos negócios liderados por mulheres.
Se queremos que as mulheres desenvolvam um negócio com alto potencial de escala e inovadores, precisamos dar caminhos para que elas consigam essas linhas, chamadas de ‘fundo perdido’ e também as de inovação.
Outra possibilidade é também criar modelos como o do programa ‘Credita’, focado em negócios liderados por mulheres. Obviamente, não é uma solução isolada. Precisamos fazer com que as políticas cheguem até a ponta, e que mulheres saibam que têm acesso a esse capital.
É um dos grandes desafios, porque se você lança uma política e uma mulher vai buscar e não consegue ter acesso, isso não adianta. Também é preciso fazer com que a ponta, que é o sistema financeiro, reconheça o potencial econômico das mulheres.
Ou seja, que elas têm chance de gerar desenvolvimento econômico, impacto e empregos e, por isso, precisam de linhas de crédito e condições mais favoráveis.”
Apesar do aumento da participação feminina no mercado de trabalho, a presença de mulheres em cargos de liderança ainda é limitada. Que medidas concretas empresas e instituições podem adotar para acelerar a representatividade feminina em posições de decisão?
“Apesar do aumento da participação feminina, a presença de mulheres em cargos de liderança ainda é limitada. Na média liderança os números avançaram nos últimos anos, e hoje temos de 30% a 40% de mulheres em cargos de coordenação, supervisão e gerência.
Mas quando olhamos para a alta liderança, como gerência executiva e diretoria, elas somem. Por isso, é preciso políticas afirmativas. Apesar de polêmico o tema, é importante as pessoas entenderem que políticas afirmativas não são uma forma de você colocar pessoas não qualificadas. Pelo contrário.
É uma forma de dar oportunidade a pessoas que são qualificadas, mas que não tiveram oportunidade porque o sistema prioriza e privilegia os homens.
Muitas empresas nos últimos anos também criaram metas claras e públicas de quantas mulheres em cargos de liderança pretendem alcançar, e isso também é uma forma de apoiar a causa sem as políticas afirmativas necessariamente.
É fundamental você ter iniciativas como as do Pacto Global da ONU, por exemplo, que juntam empresas que criam mecanismos, modelos e principalmente, metas. Sem isso, não mudamos o jogo.”
Liderança que inspira
Desde a juventude, Kelly Baptista cultiva o espírito de liderança e reconhece a relevância de defender a pauta de gênero.
Parte disso veio durante a faculdade de tecnologia, cuja sala de aula era formada, em sua maioria, por alunos homens.
“Foram os quatro anos mais difíceis da minha vida”, lembra Kelly. “Furar a bolha, como uma mulher que vinha da periferia, foi um grande choque.”
O desafio fez da luta pela representatividade e pelo acesso à tecnologia seus propósitos de vida, da condução de projetos de empregabilidade jovem na área à liderança de iniciativas de apoio ao empreendedorismo em uma instituição do terceiro setor.
Segundo Kelly, o momento de ascensão na organização foi uma virada de chave em sua carreira, e determinante em sua escolha por seguir em posições que apoiassem a formação prévia para cargos de liderança, especialmente entre as mulheres.
“Acho que minha primeira liderança foi uma liderança bem conturbada porque eu saio da base de formar mulheres, que até então eram meus pares, para liderar aqueles pares e pensar estrategicamente. Então não foi uma liderança fácil”, conta.
Atualmente, ela é presidente da Fundação 1Bi, instituição social fundada em 2019 com o intuito de conectar jovens brasileiros ao acesso a novas ferramentas e tecnologias, ela também atua como mentora para mulheres e conselheira em diversas empresas.
“Hoje sou a líder que eu gostaria de ter tido nos últimos anos”, diz. “É aquela liderança empática e que puxa outras pessoas.”
A fundação 1Bi é responsável pelo AprendiZAP, ferramenta digital de aprendizagem que apoia alunos e professores de escolas públicas que já impactou mais de 5.7 milhões de pessoas.
Para ela, ampliar a participação feminina em cargos de liderança tem o exemplo como ponto de partida.
“Para termos mais mulheres ascendendo a cargos de liderança e, mais do que isso, mulheres preparadas para esse desafio, precisamos de mais exemplos para nos espelhar”, diz.
Mais do que cursos preparatórios, ela defende a criação de uma ampla rede de apoio formada por mulheres dispostas a compartilhar aprendizados e assim, capacitar, outras líderes em início de carreira.
“No passado, me faltou isso. Hoje vejo que toda líder mulher deve retornar isso ao mercado estendendo a mão para que a jornada da liderança seja menos solitária”, diz.
Já em relação ao avanço do empreendedorismo feminino, Kelly é enfática: grandes empresas precisam ir além do discurso e tornar o apoio a pequenos negócios femininos parte de sua política de negócios.
“Precisamos ir além das “feiras de artesanato” que expõem produtos de mulheres empreendedoras. Estou falando de consumo real: contratar serviços e consumir os produtos dessas mulheres como parte crucial das políticas de fornecimento”, diz.
No âmbito do setor público, a solução, afirma, está na mudança de paradigma
“As políticas públicas precisam olhar para esse recorte. É preciso ir além dos cursos de capacitação clássicos e dissociar a imagem da mulher empreendedora, da ‘batalhadora’. Com isso, olhar para o fim da precarização do trabalho”, conclui.
Texto por Maria Clara Dias