Enquanto os enviados do presidente dos Estados Unidos Donald Trump se preparam para mais uma tentativa de diplomacia com o Irã, uma grande questão paira sobre seus esforços: as autoridades com quem estão se comunicando têm autoridade suficiente para fechar um acordo?
Autoridades americanas não têm certeza se as figuras do regime que recebem suas mensagens — transmitidas por Paquistão e Turquia — possuem autoridade final para aprovar qualquer acordo de paz, muito menos implementá-lo, segundo autoridades dos EUA e do Golfo.
Até agora, Trump parece disposto a testar o poder relativo de seus novos interlocutores iranianos, que ninguém na administração está disposto a identificar publicamente. Mesmo com Teerã chamando a proposta americana de 15 pontos para encerrar a guerra de “irrealista” e com Trump acumulando tropas na região, o presidente afirma que as conversas vão bem e descreve os novos negociadores como “mais razoáveis”.
Ainda assim, não está claro se esse vai-e-vem indireto, que pode eventualmente levar a negociações presenciais, fará o Irã aceitar concessões que antes rejeitou. Parte do regime iraniano desconfia dos EUA depois que rodadas anteriores de diplomacia fracassaram em meio a ataques americanos, segundo uma fonte.
Agora, com grande parte da liderança do regime abatida, há incerteza sobre quem tomaria a decisão final em um eventual acordo para encerrar a guerra.
“Ninguém pode afirmar hoje que quem quer que apareça em Islamabad tenha poder dentro do regime iraniano”, disse uma fonte regional, referindo-se à possível sede de futuras negociações presenciais entre EUA e Irã.
Com quem os EUA estão falando
Fontes americanas e regionais disseram que o governo Trump vem trocando mensagens indiretamente com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, e com o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf — este último visto como alguém que pode ter influência sobre o novo líder supremo, Mojtaba Khamenei.
Ainda assim, o governo mantém contato com várias autoridades devido à incerteza sobre quem realmente toma decisões no regime, disseram quatro fontes.
Quando o alto funcionário de segurança iraniano Ali Larijani foi morto em um ataque aéreo israelense há cerca de duas semanas, surgiram ainda mais dúvidas sobre quem está no comando. Ele era visto como alguém capaz de negociar em nome dos tomadores de decisão do regime.
A cúpula do regime iraniano foi tão afetada que até substitutos para vários cargos também foram eliminados na guerra conjunta entre EUA e Israel iniciada há um mês.
“O primeiro regime foi dizimado, destruído, estão todos mortos. O segundo regime está quase todo morto”, disse Trump no fim de semana a bordo do Air Force One. Agora, segundo ele, o Irã passou a um “terceiro regime” com o qual os EUA negociam indiretamente, composto por “um grupo totalmente diferente de pessoas”.
Complicando a situação está o paradeiro incerto de Mojtaba Khamenei. Altos funcionários americanos afirmam acreditar que ele esteja ferido ou morto, enquanto autoridades iranianas dizem que ele está vivo e no comando. Desde que assumiu após a morte do pai, Ali Khamenei, ele não foi visto em público.
Os únicos pronunciamentos atribuídos ao novo líder foram lidos na mídia estatal, sem vídeo ou áudio.
“Ninguém o viu. Ninguém ouviu falar dele”, disse o secretário de Estado Marco Rubio à Al Jazeera, acrescentando que a estrutura do regime está “muito opaca” no momento.
Mediadores do Paquistão e da Turquia também enfrentam dificuldades para se comunicar com autoridades iranianas, que frequentemente ficam longos períodos longe de dispositivos por segurança.
Esses desafios só aumentam as dúvidas sobre quem realmente tem autoridade em Teerã. Ainda assim, autoridades americanas insistem que as negociações são reais, embora preliminares, e que Trump segue esperançoso.
Desconfiança iraniana
Persistem dúvidas dentro do regime iraniano sobre se os EUA negociam de boa-fé, devido a encontros anteriores que pareciam promissores antes de Trump autorizar ataques aéreos em grande escala.
Uma parte do regime continua contrária às negociações, temendo ser enganada novamente, especialmente diante do envio de mais tropas americanas e ameaças à infraestrutura civil iraniana.
A Casa Branca minimizou a resposta negativa do Irã à proposta americana, classificada pelo Ministério das Relações Exteriores iraniano como “irrealista, ilógica e excessiva”.
A secretária de imprensa Karoline Leavitt afirmou que o que é dito publicamente difere do que é discutido em privado, acrescentando que os interlocutores atuais parecem “mais razoáveis” nos bastidores.
Alguns atores regionais veem a decisão do Irã de permitir mais navios no Estreito de Ormuz como um sinal de abertura para negociações, embora um acordo amplo ainda pareça distante.
A guerra continua
Enquanto Trump pressiona por um acordo, as operações militares continuam. A Casa Branca afirmou que 11 mil alvos foram atingidos e 150 embarcações afundadas.
O Irã continua lançando mísseis e drones contra vizinhos e mantém pressão sobre o Estreito de Ormuz. Também possui cerca de 1.000 kg de urânio altamente enriquecido, supostamente enterrado em instalações subterrâneas.
Apesar da esperança americana por um acordo, fontes regionais acreditam que o Irã está deliberadamente ganhando tempo. “Eles querem avançar com calma”, disse uma fonte, destacando o controle do estreito como fator estratégico.
Mesmo com a pressão militar, o regime iraniano permanece altamente ideológico, o que dificulta concessões rápidas. “Você está lidando com pessoas dez vezes piores que o Hamas”, concluiu a fonte.