Crianças andando nas ruas ao lado de policiais armados, centenas de projéteis no chão e pessoas trabalhando próximas a paredes com incontáveis marcas de tiros. Esses são alguns registros de cenários de guerra em grandes favelas do Rio de Janeiro, feitos pelo fotógrafo Bruno Itan, há quase 10 anos.

Bruno compartilhou com a CNN Brasil imagens autorais que mostram uma década do cotidiano nas principais comunidades da capital fluminense. Para alguns pode ser uma surpresa, mas para outros é a pura rotina.

Pernambucano e criado no Complexo do Alemão, na zona Norte do Rio, Bruno Itan fez um curso de fotografia na comunidade e trabalha profissionalmente há 18 anos, mostrando os lados bom e ruim das favelas, mas principalmente o reflexo das operações policiais.

“Eu tento retratar a realidade no olhar de um jornalista e de alguem que vive aqui, que sente isso aqui. Imagina morar numa casa toda fuzilada depois de uma operação. Elas infringem cada vez mais nossos direitos e estão cada vez mais violentas”, diz Bruno.

Hoje mora na Rocinha, mas o fotógrafo também acompanha o que resta das operações policiais em outras grandes favelas do Rio, como no Alemão e no Jacarezinho. Ele enfatiza que as ações das forças de segurança não só prejudicam os moradores, mas que os buracos de tiros nas paredes representam um descaso com quem vive na comunidade. 

Imagina o pânico que é, o tiro perfura a parede, o helicóptero passa por cima e fica tremendo tudo. Imagina a situação de idosos que não conseguem correr, pessoas com autismo que ficam agitadas”, relata.

As fotos de Bruno evidenciam como tiroteios viraram corriqueiros em algumas comunidades. Ao longo de anos, janelas perfuradas por disparos de armas de fogo, lixo comum misturado com projéteis de armas de alto calibre e pessoas trabalhando ao lado de buracos de tiro se tornaram situações normais.

Uma pesquisa da AtlasIntel, divulgada em outubro de 2025, revelou que mais da metade dos moradores da cidade do Rio de Janeiro já presenciou um tiroteio.

Somos enxergados sob o olhar do fuzil. Não veem a comunidade como local de potencial, de onde é possível retirar esporte, cultura e dar oportunidade para os jovens. Fico triste demais”, desabafa. Bruno conta que infelizmente viu amigos entrando para o tráfico de drogas e acabando presos ou mortos, mas decidiu seguir outro caminho.

O fotógrafo conta que espera que as fotos causem indignação e mudança com políticas públicas para apoiar e dar mais oportunidades aos moradores das favelas. “Se não tiver políticas públicas que sejam para valer, para investir nessa população, não vai mudar. Nosso futuro é interrompido por conta dessa violência”.

Megaoperação no Alemão e na Penha

A megaoperação policial de 28 de outubro de 2025, que terminou com 122 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, foi algo jamais visto por Bruno em quase 20 anos de vivência em comunidades no Rio

Bruno não só fotografou como esteve presente no Complexo da Penha na manhã seguinte à operação, onde dezenas de corpos foram estirados em uma via da comunidade pelos moradores. Naquele momento, o fotógrafo entrou ao vivo na programação da CNN Brasil para relatar a situação.

Dias após a megaoperação, um relatório entregue para Alexandre de Moraes, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), elaborado pela ouvidoria da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, relatou denúncias de moradores sobre violência e abuso de autoridades.

Segundo o documento oficial, o qual a CNN Brasil teve acesso, os moradores relataram busca indevida nas residências sem mandados, circulação proibida e atendimento negado a pessoas que estavam passando mal.

“De um lado o bandido, do outro a polícia. Tem tiroteio e até hoje nada resolve essa guerra contra as drogas. Quem sempre perde é o morador de bem, aquele que não tem nada a ver com aquilo“, lamenta Bruno.

Em 2022, a CNN Brasil noticiou um levantamento do Geni-UFF (Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense), que apurou que apenas 1,5% das operações policiais realizadas no estado do Rio de Janeiro foram consideradas eficientes, entre 2007 e 2021. Na semana anterior a divulgação do levantamento, uma ação policial no Complexo do Alemão terminou com 18 pessoas mortas.

A reportagem questionou o governo do Rio de Janeiro sobre quais medidas são feitas para auxiliar, financeira ou psicologicamente, moradores de comunidades em que são realizadas grandes operações policiais e afetadas por conflitos armados. O espaço está aberto.





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