Como todo acordo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o dessa segunda-feira (2), entre ele e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, é vago e repleto de incertezas.

Mesmo assim, é um acordo muito importante, e revelador das táticas de Trump, para ser ignorado.

Trump escreveu em sua rede social, Truth Social, que Modi concordou em por fim à importação de petróleo da Rússia, que havia motivado a imposição de uma alíquota adicional de 25% sobre os produtos indianos, além dos 25% em “tarifa recíproca”.

Por sua vez, em sua postagem na rede X, o primeiro-ministro indiano não fez referência a esse compromisso.

Ele confirmou que a tarifa americana para produtos indianos passa a ser de 18%, mas não fez menção à alíquota zero sobre todos os produtos americanos, anunciada por Trump.

Modi também não citou o compromisso de “comprar produtos americanos a um nível muito mais alto, além de mais de US$ 500 bilhões em energia, tecnologia, produtos agrícolas, carvão e muitos outros”.

Negociação acontece após acordo entre Índia e UE

Mas o aspecto mais revelador do acordo é que ele foi firmado apenas seis dias depois do anúncio do acordo de livre comércio entre Índia e União Europeia, ao fim de duas décadas de negociações.

O incentivo para ambas as partes foi precisamente a postura predatória de Trump no comércio e de abandono de compromissos na área de defesa.

Além da eliminação de tarifas, o acordo com os europeus tem também um componente cooperação na área militar.

Mais da metade do arsenal indiano é de origem russa, e o país se vê pressionado pelo crescente fornecimento de armas da China para o Paquistão, com o qual mantém disputas territoriais que levam a conflitos armados periódicos.

Trump por sinal alega ter mediado a solução do último, travado entre 7 e 10 de maio do ano passado.

A Índia é um dos países mais protecionistas do mundo. A aceitação de alíquota zero para os produtos americanos seria uma mudança muito significativa de política por parte de Nova Délhi.

Entre janeiro e novembro do ano passado, a Índia exportou US$ 95 bilhões para os EUA e importou apenas US$ 42 bilhões.

Importação de petróleo

A eliminação de toda a importação do petróleo russo também seria a renúncia a um negócio altamente lucrativo. Em novembro, a Índia importou 1,7 milhão de barris de petróleo russo.

Em dezembro, esse volume caiu para 1,2 milhão. Isso representa entre 30% e 40% das importações de petróleo pela Índia.

Desde a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2002, e consequente imposição de sanções pela Europa e Estados Unidos, a Índia e a China – que por sinal nunca foi sequer ameaçada de tarifas por esse motivo por Trump – se beneficiam da compra de petróleo russo a descontos de US$ 6 a US$ 8 por barril.

O petróleo é refinado na Índia; parte é consumida por seu mercado interno e a outra parte, vendida para a Europa. Recentemente os governos europeus se deram conta de que estavam indiretamente violando suas sanções contra a Rússia por meio desse triângulo com a Índia, e estão fechando essa brecha.

Por esse prisma talvez já tivesse se tornado mais interessante para a Índia oferecer essa concessão a Trump, em troca da eliminação da tarifa adicional e redução da alíquota “recíproca”.

Quanto a Trump, ele nunca perde a oportunidade de anunciar um bom negócio, mesmo se os detalhes não forem exatamente como ele diz.



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