A sequência de chuvas que atingiu Juiz de Fora e deixou ao menos 14 mortos e cerca de 440 pessoas fora de casa não é apenas um evento meteorológico severo. É um choque de risco sistêmico. O acumulado de 584 milímetros em fevereiro, conforme balanço da Prefeitura de Juiz de Fora reportado pela CNN Brasil, saturou o solo, elevou o risco geotécnico e levou ao transbordamento do Rio Paraibuna, com soterramentos e decretação de calamidade pública. 

Eventos dessa natureza costumam resultar da combinação entre grande disponibilidade de umidade, sistemas atmosféricos persistentes e efeito orográfico, processo pelo qual o relevo força o ar úmido a subir, resfriar e produzir chuva mais intensa em áreas de montanha ou encosta. Em um contexto de aquecimento global, a atmosfera mais quente tende a reter mais vapor d’água, o que pode intensificar episódios extremos. Mas o fator que transforma chuva em tragédia é urbano e institucional: ocupação de encostas, impermeabilização do solo e drenagem insuficiente ampliam o dano potencial. 

O Brasil dispõe de instrumentos para mitigar esse risco. O Estatuto da Cidade impõe Plano Diretor com zoneamento restritivo para áreas suscetíveis a deslizamentos e inundações. A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil prevê mapeamento de risco, planos de contingência e integração federativa.

O Fundo Nacional para Calamidades Públicas, Proteção e Defesa Civil (Funcap) pode financiar ações preventivas. A experiência da Região Serrana do Rio de Janeiro em 2011 mostrou que alerta precoce, evacuação planejada e monitoramento contínuo podem salvar vidas, desde que institucionalizados e financiados de forma permanente. Naquela ocasião, infelizmente não foi o que aconteceu. 

No mercado segurador, o impacto tende a ser mais profundo do que a reação inicial sugere. Eventos concentrados elevam simultaneamente frequência e severidade de sinistros, pressionando o índice de sinistralidade das carteiras patrimoniais e residenciais. Seguradoras precisam recalibrar provisões técnicas e modelos atuariais, incorporando maior volatilidade climática nas curvas de risco. Isso pode resultar em reajustes de prêmios, aumento de franquias e revisão de cláusulas de exclusão para danos por inundação e deslizamento. 

Há também efeito no resseguro. Catástrofes regionais sucessivas ampliam a percepção de correlação entre eventos extremos no Sudeste, afetando o custo de retrocessão internacional. Se a precificação de risco climático se tornar mais estrutural, o capital alocado para coberturas de catástrofe pode exigir retorno maior, encarecendo apólices corporativas e imobiliárias. Municípios com histórico recorrente de desastres passam a enfrentar maior escrutínio técnico antes da subscrição. 

Para o setor imobiliário e de construção civil, a consequência é dupla: aumento do custo de incorporação e maior exigência regulatória. Estudos geotécnicos aprofundados, fundações especiais, drenagem ampliada e soluções baseadas na natureza elevam o CAPEX inicial, mas reduzem risco jurídico, reputacional e de paralisação futura. Incorporadoras e bancos financiadores tendem a incorporar mapas de risco climático em due diligences, influenciando taxa de juros, exigência de garantias e viabilidade econômica de projetos em áreas sensíveis. 

No médio prazo, a tragédia pode acelerar um movimento de “precificação do risco climático” no nível local — tanto via mercado segurador quanto via crédito imobiliário. Cidades que não atualizam o Plano Diretor, mapeamento de risco e infraestrutura de drenagem tendem a enfrentar prêmio de risco crescente, refletido em seguros mais caros, crédito mais seletivo e menor atratividade para novos empreendimentos. 

O que observar agora 

Além da evolução do nível do Paraibuna e da estabilidade das encostas, será crucial monitorar a estimativa de perdas seguradas, eventual revisão de prêmios e posicionamento das resseguradoras. No plano institucional, a questão central é se o decreto de calamidade se converterá em revisão do Plano Diretor, captação de recursos via Funcap e fortalecimento permanente da Defesa Civil — ou se o custo do risco continuará sendo absorvido apenas após cada novo desastre. 

Lições não aprendidas 

Da Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011, aos alagamentos históricos no Rio Grande do Sul e ao desastre no Litoral Norte de São Paulo durante o Carnaval de 2024, o país acumula tragédias, relatórios técnicos e promessas de mudança — mas não consolida uma política estrutural de adaptação urbana compatível com a nova realidade climática. A recorrência dos desastres sugere menos surpresa meteorológica e mais falha institucional persistente: aprendemos a contabilizar vítimas, não a reduzir o risco antes que ele se materialize. 



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