“Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases; o algarismo não tem frases, nem retórica.”
O comentário de Machado de Assis se aplica a uma realidade brasileira onde arroubos de palanque e debates carentes de objetividade sugam tempo e energia que estariam mais bem alocados no planejamento do futuro do país, bem como no impulsionamento de projetos estruturantes capazes de garantir saltos de competitividade.
De volta aos algarismos: estudo de 2022 do Banco Mundial aponta que para cada dólar investido em infraestrutura é gerado US$ 1,50 em produção econômica adicional, num claro efeito multiplicador.
Rodovias, ferrovias e portos eficientes não apenas movimentam pessoas e mercadorias, mas se transformam em efetivos vetores de crescimento. O mesmo se pode dizer de sistemas eficientes geração, transmissão e distribuição de energia, além de iniciativas integradas no âmbito do saneamento.
E onde o Brasil se situa nesse cenário? Deveríamos estar direcionando o equivalente a 4% do PIB (Produto Interno Bruto) para novas obras, projetos e soluções, mas estamos aportando pouco mais de 2%. No entanto, se olharmos para o lado cheio do copo, estamos registrando avanços.
O Livro Azul, iniciativa da Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústria de Base) aponta nessa direção. O estudo mostra que os investimentos nessa área chegaram a R$ 280 bilhões no ano passado, sendo R$ 234,9 bilhões de origem privada (fortemente apoiados por concessões e parcerias público-privadas) e R$ 45,1 bilhões bancados pelo setor público.
De acordo com a associação, a bola da vez é o segmento de saneamento básico, que teve alta real de recursos de 35,7% no ano passado. Desse modo chegou à cifra de R$ 44,5 bilhões na esteira das concessões e PPPs (parcerias público-privadas) realizadas recentemente.
Também contribuiu para o resultado a expansão dos aportes da Sabesp em São Paulo.
Outro segmento que apresentou crescimento foi o de transporte e logística, que avançou 12,7% em relação a 2024, alcançando R$ 76,5 bilhões.
A Abdib considera haver um gap significativo de recursos entre o que está sendo realizado e o que seria preciso para atender a demanda de uma variedade de outros projetos em diferentes nichos.
Em números, o país deveria investir R$ 497,7 bilhões por ano, durante uma década, para atender às necessidades de infraestrutura como um todo. Partindo dessa premissa, o gap no ano passado teria sido de R$ 217, 8 bilhões.
Ainda que o tema esteja avançando no Brasil o fato é que outros países emergentes estão apostando mais alto do que nós. Não necessariamente em volume nominal de recursos, mas sim em valores relativos ao tamanho de suas economias.
Estudos internacionais apontam que há espaço para investimentos de US$ 43 trilhões em diferentes modalidades nos mercados emergentes como um todo.
Vários deles na Ásia (Vietnã e Indonésia, por exemplo) e na África (Etiópia, Egito, África do Sul, Marrocos) estão absorvendo parcelas crescentes dos recursos disponíveis.
São estados de rápido crescimento, urbanização acelerada e economias dinâmicas, que atraem investimentos estrangeiros em função de uma boa perspectiva de retorno financeiro, mas também de variáveis geopolíticas.
Temos no Brasil um fator complicador que é o de processos licitatórios marcados por razoável dose de burocracia. Também pesa a clara defasagem nas fileiras dos órgãos públicos e agências reguladoras, que deveriam contar com maior contingente de profissionais gabaritados em termos técnicos e administrativos.
Natália Resende, secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do governo de São Paulo, é um caso pouco comum de liderança no setor público cujo perfil alia sólida formação técnica à capacidade de implementação.
Em quase três anos no cargo ela conseguiu superar o desafio de implantar processos integrados de infraestrutura, alguns deles de longa maturação que passam ao largo das amarras e dos interesses dos calendários eleitorais.
Um exemplo é o projeto UniversalizaSP, destinado a garantir que o estado cumpra as metas de universalização estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento (99% da população atendida com água potável e 90% da população com coleta e tratamento de esgoto, até 2033).
Alinhado a esse objetivo a secretária implantou o Rota da Água, um conjunto de centenas de obras espalhadas pelo estado com o objetivo de garantir “resiliência hídrica”.
Natália Resende afirma que a trajetória bem-sucedida dessa iniciativa está baseada no diálogo e na parceria com prefeitos paulistas, independente de suas vinculações partidárias.