Seis anos após a morte de nove jovens durante um Baile Funk, em uma viela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, um novo relatório analisou a dinâmica da operação realizada no Baile da DZ7, no dia 1° de dezembro de 2019.

A partir de vídeos provenientes de câmeras de vigilância e registros de celular gravados por testemunhas, a investigação reconstruiu os principais movimentos da ação da Polícia Militar ao longo da rua Ernest Renan, onde ocorreu o baile.

Os dados foram divulgados no relatório Arquitetura do Cerco Policial, produzido pelo laboratório Agência Autônoma: Cidades, Direitos e Territórios, sediado na Universidade de Brasília (UnB), com base em coleta de imagens feita pela Defensoria Pública.

Conforme aponta o conjunto de evidências, na ocasião, houve uso de violência desproporcional da força policial, incluindo disparo de morteiros, uso de bombas de gás lacrimogêneo, agressão deliberada contra jovens em fuga, e ordens de dispersão como “vai morrer todo mundo.”

Além disso, a maioria das gravações de celular, foram feitas quase sempre a partir de uma fresta de janela, o que, segundo a investigação, demonstra a situação de risco à que as testemunhas estavam expostas.

Análise das imagens

O baile contou com a participação de cerca de 5 mil pessoas, nas ruas Rodolfo Lutze, Iratinga e Ernest Renan. Por volta das 3h40 a polícia iniciou a operação, que duraria cerca de uma hora.

A ação foi marcada por três pontos importantes. Em um primeiro momento, os policiais cercaram as esquinas Rua Ernest Renan e, portanto, bloquearam as rotas de dispersão da multidão. 

Logo em seguida, as filmagens mostram ações policiais violentas no interior da quadra, em especial na boca da Viela do Louro.

Buscando fugir da violência que acontecia nas duas esquinas, muitos jovens refugiaram-se em estabelecimentos comerciais e casas, enquanto parte da multidão buscou refúgio na Viela do Louro, uma passagem cerca de cinco vezes menor que a rua Ernest Renan.

A estratégia da policia, resultou na morte dos noves jovens por asfixia, devido ao encurralamento da multidão na viela estreita. 

Em nota, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) informou que os inquéritos relativos ao caso, foram concluídos em 2021 e 2020, respectivamente, com indiciamento de nove agentes por homicídio culposo, e encaminhados ao Poder Judiciário para as providências cabíveis.

A CNN Brasil entrou em contato com a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, mas não obteve retorno até a última publicação.

Relembre o caso

Realizado na comunidade de Paraisópolis desde pelo menos 2015, o Baile da DZ7 é um dos bailes funk mais famosos e tradicionais de São Paulo, reunindo cerca de 3 mil a 5 mil pessoas em cada evento, em sua maioria jovens periféricos.

Na madrugada de 1° de dezembro de 2019, forças policiais executaram uma ação repressiva no Baile da DZ7, no contexto das chamadas “Operações Pancadão” que ocorrem em função dos bailes funk nas periferias da cidade.

Ao todo, 31 agentes e 16 viaturas de diferentes forças do 16º Batalhão da Polícia Militar de São Paulo (Ronda Ostensiva Com Apoio de Motocicletas e Patrulha e Força Tática), participaram da ação.

Na época, o acontecimento, que ficou conhecido como “Massacre de Paraisópolis”, levou a morte por asfixia mecânica indireta de nove jovens que foram encurralados na Viela do Louro.

As vítimas eram: Gustavo Cruz Xavier, de 14 anos; Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16 anos; Luara Victória Oliveira, 18 anos; Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos; Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos; Gabriel Rogério de Moraes, 21 anos; Eduardo da Silva, 21 anos; Mateus dos Santos Costa, 23 anos e Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos.



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