Em depoimento ao Ministério Público do Rio de Janeiro, o comandante do Bope (Batalhão de Operações Especiais) Marcelo Corbage afirmou que os traficantes do Comando Vermelho prepararam uma emboscada para as forças de segurança atuantes na megaoperação que deixou 121 mortos, no último dia 28 de outubro, nos complexos do Alemão e da Penha.
A CNN Brasil teve acesso ao depoimento na íntegra do comandante. A versão apresentada por Corbage contraria o governador Cláudio Castro (PL) que detalhou a atuação da polícia na Operação Contenção, principalmente com a presença do “Muro do Bope”, estratégia para encurralar os criminosos em uma área de mata na Serra da Misericórdia.
“Os confrontos estão majoritariamente acontecendo em áreas de mata, então foi pensado em encurralá-los lá para que a população sentisse o mínimo possível“, disse Castro em entrevista coletiva na manhã do dia 28 de outubro.
Por outro lado, o comandante do Bope afirmou ao MPRJ que “imagens de drone mostram criminosos de deslocando ordenadamente para a Vacaria, claramente com a intenção de preparar uma emboscada para as forças de segurança“.
Policiais civis foram progredindo, sendo atraídos para uma armadilha… traficantes demonstraram conhecimento de técnicas militares totalmente estranhas a criminosos comuns.
Corbage também disse que os traficantes adotaram uma estratégia até então desconhecida pelas polícias do Rio de Janeiro, o que teria surpreendido os agentes e militares atuantes na operação.
Não é verdade que os policiais se posicionaram previamente na Serra da Misericórdia para fazer o que é conhecido como “tróia”. Os traficantes já se encontravam entrincheirados em verdadeiros bunkers no local.
No depoimento, o comandante ainda enfatizou a resposta violenta dos criminosos à operação policial. Segundo ele, os criminosos resistiram e sustentaram fogo de maneira nunca vista. “A agressividade demonstrada pelos criminosos nessa oportunidade fugiu a todos os padrões anteriormente detectados“, afirmou.
A CNN Brasil solicitou uma nota para o governo do Rio de Janeiro e aguarda um retorno. O espaço segue aberto.
O que disseram moradores sobre violência policial na megaoperação no RJ
Megaoperação: 121 mortos
A fase da Operação Contenção no dia 28 de outubro foi uma megaoperação conjunta das polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da capital fluminense. O evento ficou marcado como a operação policial mais letal da história do Brasil, com 121 mortos.
O objetivo da operação foi combater a expansão territorial do CV (Comando Vermelho) e cumprir 100 mandados de prisão contra integrantes e lideranças criminosas da facção. Entre os alvos estavam 30 membros da facção oriundos de outros estados, principalmente do Pará, que estariam escondidos nas comunidades
De acordo com as autoridades, a operação foi resultado de mais de um ano de investigação conduzida pela DRE (Delegacia de Repressão a Entorpecentes). Cerca de 2.500 agentes das forças estaduais de segurança participaram. O suporte logístico incluiu drones, dois helicópteros, 32 blindados e 12 veículos de demolição.
Veja os números finais da operação:
- 121 mortos, sendo 117 suspeitos e 4 policiais;
- 113 presos e 10 menores apreendidos;
- 118 armas apreendidas (91 fuzis + 26 pistolas + 1 revólver), 14 artefatos explosivos.
Entre os principais nomes do CV presos na operação está Thiago do Nascimento Mendes, conhecido como Belão ou Belão do Quitongo. Ele é apontado como braço direito do chefe do Comando Vermelho, Edgar Alves de Andrade, vulgo “Doca” ou “Urso”. Doca também era alvo, mas até agora não foi localizado.
Os quatro policiais mortos no confronto foram enterrados nesta quinta-feira (30). Dois deles integravam o Bope: o sargento Heber Carvalho da Fonseca e o policial militar Cleiton Serafim Gonçalves.
Também morreram os policiais civis Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho, chefe da 53ª DP (Mesquita), e Rodrigo Velloso Cabral, inspetor da 39ª DP (Campo Grande).
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Armas da Europa, drones e roupas camufladas
Ao longo dos anos, o CV (Comando Vermelho) aprimorou o “arsenal de guerra” que utiliza nos confrontos contra a polícia e grupos rivais do Rio de Janeiro.
Durante a megaoperação de terça-feira (28), a mais letal da história do Brasil, os integrantes da facção usaram armas fabricadas na Europa, tecnologias como drones, além de roupas camufladas.
As novas táticas nas “batalhas campais” e os armamentos usados mostram uma espécie de “escalada bélica”. Armas de uso das forças armadas de países da América do Sul foram encontradas entre os 91 fuzis apreendidos durante a ação policial.
Entre as armas apreendidas, estão modelos da Venezuela, Argentina, Peru e Brasil. Os fuzis apreendidos são, em sua maioria, dos calibres 5.56 e 7.62, fabricados principalmente no Velho Continente. Segundo a Polícia Civil, muitos chegam ao Brasil por rotas que passam pelo Paraguai.
Indícios apontam que criminosos transportam apenas partes das armas e que completam os componentes com peças adquiridas legalmente pela internet.
De acordo com Paulo Storani, ex-capitão do Bope, hoje o CV tem acesso a armas como fuzis de modelo G3, uma arma considerada extremamente sofisticada.
Ainda segundo ele, são vistas em posse de integrantes da facção AKs-47, modelo de fuzil usado por exércitos europeus e da Venezuela, e FAls, tipo utilizado pelas forças armadas brasileiras.
Segundo as forças de segurança, durante a megaoperação de terça-feira (28), faccionados do Comando Vermelho usaram drones para lançar granadas contra os agentes das forças de segurança.
Além disso, os equipamentos tecnológicos são usados pela facção para o monitoramento de ações policiais.
A denúncia do MPRJ, que serviu como ponte de partida para a operação, destaca como o crime tem se modernizado. Segundo o documento, Carlos “Gardenal”, integrante do CV, era responsável por orientar a aquisição dos drones de vigilância.
Há, inclusive, trocas de mensagens entre ele e outro acusado de vulgo “Grandão”, sobre a utilização de drones de maior tecnologia para atenderem, por exemplo, monitoramento noturno.
“A gente tem que se adequar à tecnologia, entendeu?”, disse “Gardenal” em uma das mensagens.