Na reta final das negociações do texto final da COP30 de Belém, as autoridades brasileiras se dividiram sobre o alcance que a menção ao mapa do fim do petróleo idealizado pelo presidente Lula como marca desta edição da conferência deveria ter.

Enquanto a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, mentora da ideia, defende que o texto final contenha um desenho mais assertivo para o Mapa, a diplomacia brasileira entende ser plausível que apenas uma menção intermediária e mais branda seja incluída, sob pena de prevalecer a terceira opção, que prevê nenhuma menção.

Essa divergência ficou mais clara em uma das reuniões ocorridas nesta quinta-feira na Blue Zone, em Belém.

Segundo uma fonte presente no evento, Lula fez a abertura defendendo enfaticamente o sucesso da COP brasileira e especialmente a cidade de Belém, aproveitando as portas fechadas para fazer críticas mais duras ao chanceler alemão Friedrich Merz por suas declarações contra a capital paraense.

Na sequência, o presidente elogiou a condução das negociações do presidente da COP, embaixador André Corrêa do Lago, e pediu para que não “derrapasse” na reta final. O embaixador retribuiu o elogio pedindo ajuda a Lula. Foi então que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, alertou o embaixador para que ele não cedesse na negociação.

A versão mais recente do Mapa do Fim do Petróleo de Lula tem três caminhos possíveis.

Marina defende o mais enfático deles: um roteiro de transição com progressiva redução da dependência dos fósseis. É uma versão mais incisiva e prática, que impõe um compromisso maior aos países e, portanto, uma transição mais rápida.

Como era de se esperar, é justamente o fato de ser mais enfático que o torna o mais difícil de ser aprovado. Tem oposição dos países árabes, maiores produtores de petróleo; dos países africanos, que não querem mais uma obrigação a ser cumprida; e da China, que entende não ser ainda a hora de frear o petróleo.

A diplomacia brasileira entende que a segunda opção, mais branda e, portanto, mais negociável, seria um “caminho do meio” possível. O trecho fala de compartilhamento de experiências em transição energética bem-sucedidas entre países. Na prática, não vincula a uma ação mais efetiva e levaria a uma lenta redução do uso dos fósseis.

Tudo para evitar que prevaleça a terceira versão na mesa: o “no text” (não texto) — simplesmente não haver qualquer menção a um roteiro para o fim do combustível fóssil.

Para os diplomatas, Marina já ganhou ao pautar o debate do Mapa de Lula, independentemente de menção ou não no texto final. Virou, na prática, o grande tema desta COP, a ponto de ser levado naturalmente para as próximas conferências. Veem, portanto, vitória de Marina. A ministra discorda e acha que vitória mesmo só se houver algo forte no texto final.

O receio dos diplomatas é de que este ponto em específico acabe por contaminar a negociação de todo o restante, em especial os quatro pontos mais sensíveis: financiamento climático, fim de medidas comerciais unilaterais, metas mais robustas de redução de emissões e relatórios de transparência dessas emissões. E que é preciso que todos cedam — Brasil inclusive — para que o “Pacote de Belém” seja um significativo legado da COP brasileira, ainda que com divisões internas na delegação brasileira.

Já nos últimos dias em Belém, essas diferenças entre o que pensa a diplomacia e o que pensa a área ambiental haviam sido sutilmente expostas.
Em uma entrevista coletiva na segunda-feira, de Marina Silva com os diplomatas, questionados sobre qual seria a prioridade do texto final da COP, os diplomatas disseram que seria a consagração do multilateralismo.

Ao que Marina Silva pegou a palavra na mesma hora para dizer que a prioridade seria “a ideia potente do presidente Lula” do Mapa do Petróleo, inclusive afirmando que poderia ser uma chance de revitalizar o multilateralismo.

Na terça-feira à noite, foi a vez da CEO da COP, Ana Toni, próxima de Marina, mas permanentemente ao lado dos diplomatas brasileiros que conduzem as negociações, sair do seu tom discreto e alertar que o “Mapa é 100% ‘red line’ para boa parte dos países”. “Red line”, ou “linha vermelha”, é a expressão utilizada pelos países para deixar claro que um assunto não pode avançar.



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