Em fevereiro de 2026, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, recebeu representantes de 54 países em Washington para uma reunião ministerial sobre minerais críticos. O Brasil estava na sala. Mas a questão real que o momento coloca ao governo Lula não é se participar, é em que termos.
A resposta que Brasília já sinalizou nas rodadas de dezembro merece ser repetida em voz alta: o Brasil não será um mero exportador de matéria-prima. Qualquer acordo com os norte-americanos terá como premissa a transferência de tecnologia e o beneficiamento dos minerais em território nacional.
É a posição certa. O desafio é sustentá-la diante de uma pressão crescente, e transformá-la em política concreta antes que a janela se feche.
O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, com cerca de 21 milhões de toneladas. Detém também a segunda maior reserva global de grafite, grandes jazidas de lítio no Vale do Jequitinhonha e responde por mais de 90% da produção mundial de nióbio.
O país fornece ainda aproximadamente 60% de toda a alumina importada pelos Estados Unidos.
É uma posição geológica invejável. Mas geologia não é destino; é ponto de partida.
A China levou décadas para transformar suas reservas em dominância industrial: hoje controla mais de 90% da capacidade global de refino de terras raras. O Brasil ainda produz uma fração ínfima do que suas reservas permitiriam.
A disputa americano-chinesa por minerais críticos deixou de ser subtexto e se tornou o centro da arquitetura geopolítica global. Quando a China restringiu exportações de terras raras pesadas em 2025, enviou um sinal inequívoco de que esses materiais são armas tanto quanto commodities.
Washington respondeu com o Projeto Vault, fundo de US$ 10 bilhões para criar reservas estratégicas e diversificar fornecedores.
O Brasil passou, quase da noite para o dia, de promessa geológica a ativo geopolítico de primeira ordem. Esse novo status traz oportunidades reais, mas também riscos que o debate público ainda subestima.
Os financiamentos norte-americanos já em curso chegam antes de qualquer acordo formal entre os dois governos. O capital precede a política. E capital sem política é dependência com outra bandeira.
O maior risco é repetir, com nova roupagem, o ciclo histórico que o país conhece de cor: exportar o bruto, importar o sofisticado, e ficar para trás na cadeia de valor.
Uma negociação inteligente precisa ancorar o processamento e o refino dentro do Brasil, não apenas a extração. Precisa vincular os financiamentos norte-americanos, como o empréstimo de US$ 565 milhões já concedido à Serra Verde, à instalação de plantas industriais no país, e não apenas à produção de concentrados de baixo valor para refino no exterior.
Precisa também fazer da pesquisa conjunta um vetor de soberania, com parcerias entre universidades brasileiras e laboratórios americanos para desenvolver capacidade nacional em refino e tecnologia de ímãs permanentes.

Além disso, é necessário converter a vantagem ambiental do Brasil, sua matriz energética renovável, que permite produzir alumínio verde e aço de baixo carbono, em acesso preferencial aos programas de compras do governo norte-americano.
Em março, uma comitiva dos Estados Unidos de alto nível chegará a São Paulo para reuniões técnicas com mineradoras. É um sinal de interesse genuíno de Washington. Mas também é uma oportunidade que o Brasil precisa saber usar.
O risco não está em negociar com os norte-americanos; está em negociar sem estratégia, deixando que o ritmo e os termos sejam definidos pelo outro lado.
O marco regulatório para minerais críticos, que tramita em regime de urgência na Câmara, precisa sair do papel antes que os contratos se tornem fatos consumados.
O Brasil é um dos poucos países que importam tanto para Washington quanto para Pequim nessa disputa, o que lhe confere uma alavancagem rara.
Usá-la bem significa negociar com cada potência a partir de uma estratégia industrial própria, com o objetivo explícito de transformar o subsolo brasileiro no ponto de partida de uma cadeia produtiva sofisticada.
Riqueza mineral que não se converte em capacidade industrial é apenas uma promessa adiada. O Brasil já conheceu esse roteiro. Desta vez, pode (e precisa) ser diferente.