A capacidade de algumas estações de esqui produzirem neve artificial mesmo com temperaturas positivas não é uma anomalia climática, mas resultado direto de princípios físicos bem estabelecidos e cada vez mais relevantes do ponto de vista econômico. O fator determinante não é a temperatura do ar medida pelo termômetro convencional, e sim a temperatura de bulbo úmido, que combina temperatura e umidade relativa e define o limite real para o congelamento das gotículas de água lançadas no ambiente.
Na prática, quando a água é pulverizada em gotículas extremamente finas, parte dela evapora instantaneamente. Esse processo de evaporação retira calor da própria gota, provocando um resfriamento acelerado. Se a temperatura de bulbo úmido estiver suficientemente baixa, a gotícula congela ainda no ar, formando neve antes de atingir o solo — mesmo que a temperatura ambiente esteja acima de 0 °C.
Há, contudo, limites práticos claros. De forma geral, a produção de neve artificial torna-se eficiente quando a temperatura de bulbo úmido se mantém abaixo de aproximadamente –2 °C a –5 °C. Acima desse intervalo, o resfriamento evaporativo já não é suficiente para garantir o congelamento completo das gotículas, resultando em neve de baixa qualidade ou em simples água pulverizada. Por isso, não basta frio: é essencial que o ar esteja seco, condição mais comum em regiões de altitude elevada e clima continental.
Esse conjunto de fatores explica por que estações nos Alpes, nas Montanhas Rochosas e também na Cordilheira dos Andes conseguem produzir neve artificial mesmo com temperaturas do ar entre 2 °C e 4 °C. Em estações de áreas montanhosas, a altitude elevada e o ar mais seco ampliam essa janela técnica de operação. A combinação entre relevo, baixa umidade e equipamentos modernos cria uma margem operacional que estende a temporada de inverno mesmo em anos climaticamente desfavoráveis.
A neve artificial resultante apresenta características físicas distintas da neve natural. Seus cristais são menores, mais compactos e com maior densidade. Isso reduz a presença de ar entre os grãos, o que explica por que ela demora mais tempo para derreter. A maior densidade física e a menor área de contato com o ar fazem com que o calor seja absorvido mais lentamente, tornando a neve artificial mais resistente ao degelo e ao tráfego intenso de esquiadores — uma vantagem operacional relevante para pistas comerciais.

Esse debate ganhou escala global com a preparação para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, na Itália. A organização do evento já incorporou o uso extensivo de neve artificial como parte do planejamento operacional, reconhecendo que a variabilidade climática nos Alpes reduz a confiabilidade da neve natural. A decisão explicita uma mudança estrutural no esporte de inverno: mesmo competições de elite passaram a depender de infraestrutura tecnológica para garantir calendário, segurança das provas e padrões internacionais de desempenho.
Nesse contexto, a neve artificial passou a ser corretamente enquadrada não apenas como uma solução técnica, mas como instrumento de adaptação climática e variável de previsibilidade econômica. Em mercados maduros, mais de 70% das pistas de esqui já dependem, total ou parcialmente, de neve artificial para garantir a abertura da temporada. A tecnologia deixou de ser acessória e passou a integrar o núcleo da estratégia financeira das estações, reduzindo incertezas, sustentando empregos sazonais e melhorando a previsibilidade de receita em um ambiente de crescente volatilidade climática.
Ao mesmo tempo, o processo impõe custos elevados de água e energia, o que pressiona operadores a investir em eficiência hídrica, fontes renováveis e governança ambiental. A viabilidade da neve artificial, portanto, não se limita à física do congelamento, mas envolve decisões estratégicas sobre investimento, sustentabilidade e gestão de risco climático em um mercado em transformação.