Durante as duas primeiras semanas da guerra no Oriente Médio, enquanto ataques dos EUA e de Israel atingiram instalações militares e de energia em todo o Irã, um local permanecia notavelmente intacto.

Apesar de seu tamanho diminuto, a Ilha de Kharg é vital para a economia iraniana, sendo responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo bruto do país – o que significa que qualquer ataque contra ela corre o risco de desencadear uma escalada significativa.

Mas, na sexta-feira (13), os EUA atacaram instalações militares na ilha. Locais relacionados ao comércio de petróleo não foram atingidos, segundo autoridades americanas e a mídia estatal iraniana.

Mas Trump ameaçou atacar também esses locais, caso o Irã continue bloqueando a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz.

A CNN compilou o que você precisa saber sobre esse gargalo crucial nas operações de exportação de petróleo do Irã.

Por que a ilha é tão importante?

A Ilha de Kharg é uma formação de coral com cerca de um terço do tamanho de Manhattan, localizada a apenas 25 quilômetros da costa do Irã, no Golfo Pérsico.

Quase todos os dias, milhões de barris de petróleo bruto jorram dos principais campos petrolíferos do Irã – incluindo Ahvaz, Marun e Gachsaran – através de oleodutos até a ilha, conhecida entre os iranianos como a “Ilha Proibida” devido ao rígido controle militar.

Seus longos cais, que se estendem em águas profundas o suficiente para acomodar superpetroleiros, fazem da ilha um local crucial para a distribuição de petróleo. Ela processa 90% das exportações de petróleo bruto do Irã.

A ilha tem sido fundamental para a economia do Irã há muito tempo.

Um documento da CIA de 1984 afirmava que as instalações são “as mais vitais do sistema petrolífero iraniano, e sua operação contínua é essencial para o bem-estar econômico do país”.

O líder da oposição israelense, Yair Lapid, declarou recentemente que destruir o terminal “paralisaria a economia do Irã e derrubaria o regime”.

De acordo com a Reuters, o Irã fornece cerca de 4,5% do petróleo mundial, bombeando 3,3 milhões de barris de petróleo bruto e 1,3 milhão de barris de condensado e outros líquidos diariamente.

E a ilha tem recebido carregamentos de petroleiros “sem parar desde o início da guerra”, de acordo com o TankerTrackers.com, que usa imagens de satélite, fotografias da costa e dados para rastrear remessas de petróleo bruto.

Nas semanas que antecederam os ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã, as exportações de Kharg aumentaram para níveis próximos aos recordes, afirmou o banco de investimentos americano JP Morgan em uma nota divulgada pela Reuters.

A capacidade de armazenamento em Kharg é estimada em cerca de 30 milhões de barris e, de acordo com a empresa de análise de comércio global Kpler, cerca de 18 milhões de barris de petróleo bruto estão atualmente armazenados lá, informou a Reuters.

O que aconteceu com Kharg?

Na sexta-feira, Trump anunciou que as forças armadas dos EUA realizaram o que ele chamou de “um dos bombardeios mais poderosos da história do Oriente Médio”, destruindo instalações militares na ilha de Kharg.

Um vídeo publicado por Trump no Truth Social e geolocalizado pela CNN mostrou ataques dos EUA às instalações e à pista do aeroporto de Kharg.

Um oficial militar dos EUA disse à CNN que os ataques foram de “grande escala”, mas evitaram atingir a infraestrutura petrolífera da ilha.

Os alvos incluíam instalações de armazenamento de minas navais, bunkers de mísseis e outras infraestruturas militares, acrescentou o oficial.

O Irã informou que mais de 15 explosões foram registradas na ilha, mas que nenhuma infraestrutura petrolífera foi danificada, de acordo com a agência de notícias estatal Fars.

Trump, no entanto, ameaçou atacar os ativos petrolíferos da ilha caso o Irã continue bloqueando a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz.

Possíveis impactos de um ataque ao petróleo

O Irã afirmou que qualquer ataque à sua infraestrutura de petróleo e energia levará a ataques retaliatórios contra instalações na região pertencentes a empresas petrolíferas aliadas dos EUA, informou a mídia estatal iraniana, citando o quartel-general do comando militar de Teerã.

Os ataques dos EUA aumentaram a tensão na guerra, disse um oficial aposentado do Exército americano à CNN.

“A situação mudou de ‘eliminar os militares, eliminar o regime’ para uma tentativa de eliminar potencialmente a força vital da economia deste país”, disse o ex-brigadeiro-general do Exército dos EUA, Mark Kimmitt.

Kimmitt afirmou que os EUA estão mantendo a ilha como “refém” para garantir que o Irã permita a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, cujo fechamento já fez disparar os preços do petróleo bruto.

Se essa infraestrutura petrolífera for alvo de ataques, disse Kimmitt, “fica claro que o Irã atacará o restante da infraestrutura no Oriente Médio”.

“E nesse ponto, os preços do petróleo simplesmente ficarão fora de controle”, acrescentou.

Caso as instalações petrolíferas de Kharg fossem atacadas, o Irã poderia levar meses, ou até mais de um ano, para reconstruí-las, disse Muyu Xu, analista sênior de petróleo bruto da Kpler, à CNN, acrescentando que, como principal comprador de petróleo iraniano, a China provavelmente seria a mais afetada.

“Eles (o Irã) ainda enfrentam sanções ocidentais, não conseguem garantir fundos suficientes, nem tecnologia e conhecimento especializado; será difícil para eles se reconstruírem”, acrescentou Xu.

O que poderá acontecer?

Analistas afirmaram que o Irã poderia intensificar ainda mais o conflito, cumprindo sua ameaça de atacar a infraestrutura petrolífera da região.

O país já atingiu tanques de armazenamento de petróleo em Omã e Bahrein, países aliados dos EUA, e teve como alvo petroleiros e navios de carga no Golfo Pérsico.

A Guarda Revolucionária Islâmica também ameaçou incendiar a infraestrutura de petróleo e gás da região caso instalações de energia iranianas sejam atacadas.

Os ataques a Kharg ocorreram no mesmo dia em que os EUA anunciaram o envio de uma unidade de resposta rápida da Marinha, composta por cerca de 2.500 fuzileiros navais e marinheiros, para o Oriente Médio.

O ex-brigadeiro-general do Exército dos EUA, Kimmitt, mencionou a possibilidade de essa força ocupar a ilha de Kharg.

Ainda não está claro para que a unidade será usada ou onde exatamente será implantada. Mas essas unidades têm sido tradicionalmente usadas em missões como retirada em larga escala e operações anfíbias que exigem deslocamentos de navio para terra, incluindo incursões e assaltos.

Especialistas também argumentaram que tentar capturar ou atacar a Ilha de Kharg exigiria um número significativo de tropas terrestres — algo que o governo Trump tem se mostrado relutante em mobilizar até o momento.



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