A Tailândia anunciou nesta terça-feira (11) a suspensão da implementação do cessar-fogo com o Camboja.
A declaração acontece um dia após a explosão de uma mina terrestre que feriu gravemente um soldado tailandês.
Esse é o maior teste para a trégua mediada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O governo tailandês acusou o Camboja de plantar novas minas terrestres ao longo de um trecho da fronteira disputada, incluindo uma mina antipessoal PMN-2.
Com a explosão do dispositivo, quatro soldados tailandeses ficaram feridos na segunda-feira (10), um deles perdeu um pé na explosão.
“O Ministério das Relações Exteriores apresentou um protesto ao Camboja e, caso não haja novas ações ou esclarecimentos, a Tailândia considerará revogar a declaração”, afirmou o porta-voz do governo, Siripong Angkasakulkiat, em comunicado.
O primeiro-ministro tailandês, Anutin Charnvirakul, ordenou ao Ministério da Defesa que suspendesse todos os acordos com o Camboja por tempo indeterminado, acrescentou o porta-voz.
Nesta terça-feira (11), o Ministério da Defesa do Camboja negou ter plantado novas minas terrestres e pediu à Tailândia que evitasse patrulhas em antigas áreas minadas.
O país reafirmou seu compromisso em cooperar com Bangkok conforme o acordo de cessar-fogo ampliado, firmado em outubro.
Os Estados Unidos estão reunindo mais informações sobre o ocorrido, declarou um porta-voz do Departamento de Estado à agência de notícias Reuters, instando os países vizinhos a manterem a estabilidade e a implementarem o acordo.
Os líderes das nações assinaram o acordo no mês passado em uma cúpula regional na Malásia, com a presença de Trump. A resolução inclui a retirada de armamento pesado das áreas de fronteira e a libertação de 18 prisioneiros de guerra cambojanos.
Os dois países encerraram um conflito de cinco dias em julho, após telefonemas de Trump instando os líderes a cessarem as hostilidades ou enfrentarem obstrução nas respectivas negociações comerciais com Washington.
A troca de tiros, com foguetes e artilharia pesada, durante os confrontos, matou pelo menos 48 pessoas e deslocou temporariamente cerca de 300 mil.
Minas da era soviética
Uma série de explosões de minas terrestres ao longo da fronteira entre a Tailândia e o Camboja impulsionou os combates de julho.
Bangkok acusou o país vizinho de usar minas PMN-2 de origem soviética para atingir suas tropas.
Pelo menos sete soldados tailandeses ficaram gravemente feridos em três acidentes relacionados a minas terrestres desde 16 de julho.
A explosão de segunda-feira (10) também envolveu uma mina PMN-2, com três dispositivos semelhantes encontrados nas proximidades, informou o exército tailandês em um comunicado divulgado no final da segunda-feira.
O Camboja nega a acusação de Bangkok, apontando para o risco contínuo de munições plantadas durante décadas de guerra civil, que o tornam um dos países mais minados do mundo.
“O Camboja reafirma que não usou nem colocou novas minas terrestres”, declarou o país.
A resposta do Camboja ao último acidente, no entanto, não é suficiente, afirmou o ministro das Relações Exteriores da Tailândia, Sihasak Phuangketkeow.
Ele acrescentou que Bangkok explicaria sua decisão aos Estados Unidos e à Malásia, país presidente da ASEAN, grupo regional que facilitou o processo de cessar-fogo.
“Precisamos ver qual será a posição do Camboja daqui para frente”, declarou ele a jornalistas.
Em Kuala Lumpur, o primeiro-ministro Anwar Ibrahim afirmou que oficiais militares malaios estavam trabalhando para ajudar a resolver a questão, acrescentando: “Espero sinceramente que este assunto possa ser resolvido”.
Disputa de longa data
Por mais de um século, a Tailândia e o Camboja têm disputado a soberania em pontos não demarcados ao longo de sua fronteira terrestre de 817 km.
A linha demarcada foi mapeada pela primeira vez em 1907 pela França, quando governava o Camboja como colônia.
Apesar das tentativas de resolver pacificamente as reivindicações sobrepostas, a tensão aumentou repentinamente, com uma troca de tiros de artilharia que durou uma semana em 2011.
O conflito mais recente ocorreu após a morte de um soldado cambojano durante uma breve troca de tiros em maio e se intensificou progressivamente.
Uma tentativa de Paetongtarn Shinawatra, o até então primeiro-ministro tailandês, de acalmar os ânimos em um telefonema com o ex-líder cambojano Hun Sen, teve um efeito contrário desastroso depois que ele vazou uma gravação da conversa.
O ocorrido levou à sua demissão por ordem judicial.
Embora Donald Trump pudesse usar o comércio como alavanca para tentar retomar o acordo, qualquer esforço teria que lidar com a percepção tailandesa de que a soberania nacional está em risco, disse Matthew Wheeler, analista sênior do International Crisis Group.
“A suspensão da implementação por parte da Tailândia reflete a intensidade do sentimento popular em relação à questão da fronteira com o Camboja e a escassez de espaço político para o governo adotar uma abordagem conciliatória”, afirmou.