Quando Donald Trump afirmou, na semana passada, que a guerra com o Irã está “quase acabando” porque “praticamente não há mais nada para bombardear”, ele não descrevia uma realidade militar. Descrevia um problema político que precisa de solução narrativa.
Trump disse à Axios que “a qualquer momento que eu quiser, a guerra termina”, sinalizando que a operação cumpriu seus objetivos.
O problema é que, três semanas depois do início dos ataques, o Irã segue disparando drones e mísseis contra Israel e bases norte-americanas, e mantém o Estreito de Ormuz efetivamente bloqueado ao tráfego comercial.
A questão não é tática. É semântica, e carrega consequências de longo prazo que a retórica do presidente deliberadamente obscurece.
Trump pode, de fato, encerrar a Operação Epic Fury formalmente e reivindicar vitória. Há material para isso. Os Estados Unidos destruíram mais de cinquenta navios de guerra iranianos, degradaram fortemente o arsenal de mísseis e atingiram instalações nucleares adicionais. Mas fazê-lo agora implicaria uma ressignificação silenciosa dos objetivos da operação, reduzindo-os ao que sempre foi minimamente realizável: dano militar de curto prazo, de caráter estritamente cinético.
Qualquer meta de natureza política (mudança de regime, neutralização permanente do programa nuclear, reconfiguração da ordem regional) permanece não apenas intacta, mas em aberto de forma mais explosiva do que antes.
O senador democrata Chris Murphy, após briefing classificado com a administração, formulou a pergunta que ninguém na Casa Branca soube responder.
“O que acontece quando os bombardeios cessam e o Irã retoma a produção de mísseis e drones?” A resposta honesta é que haverá mais bombardeios. O que configura não uma estratégia, mas um ciclo de degradação sem arquitetura política.
As condições iranianas para o fim da guerra ajudam a dimensionar o abismo entre a retórica de Trump e qualquer desfecho sustentável. O presidente Pezeshkian declarou que a única forma de encerrar o conflito é o reconhecimento dos direitos legítimos do Irã, o pagamento de reparações e garantias internacionais firmes contra agressões futuras.
O novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, tomou posse com um discurso radicalmente distinto. Afirmou que a alavanca do bloqueio do Estreito de Ormuz deve continuar a ser utilizada e convocou os países do Golfo a fechar as bases norte-americanas.
O regime não foi derrubado. Foi radicalizado. O Estado iraniano sobreviveu ao ataque que matou seu líder máximo e elegeu como sucessor o filho militar do aiatolá, formado nos quadros da Guarda Revolucionária. É difícil imaginar resultado mais contrário ao objetivo declarado de mudança de regime.
Enquanto isso, os custos já se acumulam, e não apenas para o Irã.
O preço do petróleo disparou com o bloqueio de Ormuz, que responde por cerca de 20% do comércio global de petróleo; o Programa Alimentar Mundial alertou para aumentos significativos e duradouros nos preços de alimentos; e quase metade das exportações globais de ureia e enxofre passa pelo estreito, ameaçando a segurança alimentar em escala planetária.
Cidadãos norte-americanos já encontram nas bombas de gasolina preços iniciando em “3”, e especialistas alertam que podem chegar a “4”, pressionando uma inflação doméstica que a própria base eleitoral de Trump elenca como prioridade número um.
Os aliados regionais dos Estados Unidos foram atacados pelo Irã em retaliação e, ao mesmo tempo, não receberam consulta prévia antes da operação.
Trump pediu à França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido que enviassem navios de guerra ao Estreito, mas mesmo os países aliados reagiram com cautela e várias rejeitaram o pedido.
A China, que absorve boa parte do petróleo do Golfo e sai fortalecida como mediadora confiável da região enquanto Washington aprofunda sua imagem de potência desestabilizadora, não tem qualquer incentivo em ajudar a desembaraçar a armadilha que os Estados Unidos criaram para si mesmos.
As condições que tipicamente produzem guerras curtas – vantagem militar decisiva, adversário disposto a negociar e um horizonte político claro – estão conspicuamente ausentes neste conflito.
Trump pode declarar vitória. Mas uma vitória que redefine retrospectivamente seus objetivos para acomodar seus resultados não é vitória estratégica. É gerenciamento de narrativa.
O caos instalado na região não desaparecerá com um comunicado da Casa Branca. Ele continuará se apresentando na conta da gasolina, no preço dos alimentos, na erosão das alianças e, sobretudo, no fortalecimento de um adversário sistêmico que observa tudo isso com a serenidade de quem não precisou disparar um único tiro.