O referendo que levou o Reino Unido a deixar a União Europeia, conhecido como Brexit, completa 10 anos nesta terça-feira (23), sem que os britânicos tenham conseguido superar os piores efeitos de uma disputa extremamente polarizada.
Durante a última década, o país ficou mais instável e empobrecido.
A renúncia do primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer, anunciada justamente na véspera do aniversário do referendo, é uma prova da instabilidade que tomou conta da política britânica desde 2016.
Nestes dez anos, o Reino Unido teve seis primeiros-ministros e se prepara para o sétimo nas próximas semanas.
Um recorde para um país que costumava ser visto como um exemplo de estabilidade institucional, com alternância previsível e democrática de poder entre os partidos Conservador e Trabalhista.
Mais revelador ainda é o fato de que apenas um desses líderes deixou o cargo após perder uma eleição. Todos os outros foram derrubados pelos próprios aliados depois de perder apoio em seus partidos, muitas vezes em crises internas diretamente ligadas ao Brexit.
Um sinal claro de que os próprios partidos estão divididos e sem um norte político que alinhe todas as suas bases.
O referendo, que deveria encerrar o debate sobre a relação com a Europa, teve o efeito oposto. Reabriu feridas históricas, aprofundou divisões e fragmentou o sistema político.
Também mudou profundamente o debate político, abrindo espaço para o crescimento de movimentos mais radicais, com forte discurso nacionalista, anti-imigração e frequentemente marcado por retórica xenófoba.
A grande ironia é que a consulta popular foi convocada pelo então primeiro-ministro conservador David Cameron (2010 – 2016) justamente para calar a ultradireita dentro de seu partido e outros movimentos que então eram minoritários na política britânica.
Esses grupos costumavam usar a ligação com a União Europeia como uma forma de buscar apoio junto a trabalhadores descontentes com as promessas não cumpridas pelo processo de globalização e a falta de perspectiva de melhora substancial de vida.
O próprio Cameron fez campanha para o país continuar na União Europeia, mas foi vencido por um discurso recheado de notícias falsas.
Parte da campanha foi comandada por seus próprios ministros, mostrando como os partidos políticos perderam a disciplina entre os seus membros.
Derrotado, Cameron renunciou, abrindo um espaço precioso para empoderar os movimentos nacionalistas, especialmente no interior da Inglaterra.
Os radicais, hoje representados pelo partido Reform UK (que vem ganhando muita popularidade em partes do país), só aumentaram suas demandas.
O discurso forte desses grupos, especialmente contra imigrantes, criou uma turbulência nunca vista na política do país e paralisou inúmeras administrações.
Protestos nitidamente racistas começaram a ser vistos com mais frequência numa sociedade que historicamente se orgulhava de ser tolerante e inclusiva.
Impacto econômico
Os efeitos econômicos negativos do Brexit também são claros.
A maior parte dos economistas concorda que o rompimento com a União Europeia custou caro e reduziu o potencial de crescimento do Reino Unido.
As estimativas variam, mas o próprio Office for Budget Responsibility, o órgão fiscal independente do governo britânico, estimou uma perda de cerca de 4% do PIB e uma redução do comércio com a UE de 15% no longo prazo.
O maior prejuízo, no entanto, não se deve às tarifas de importação e exportação, visto que o Reino Unido fez um acordo comercial com a Europa. O problema é a imensa burocracia que foi criada para o comércio entre os dois lados, que antes era livre.
Além disso, ao sair da União Europeia, o Reino Unido perdeu bilhões em investimentos que acabaram indo para outros países do bloco.
Esses impactos ajudam a explicar a mudança de percepção da própria população, que percebeu que sua vida não melhorou depois do rompimento com a Europa. Pelo contrário.
Uma pesquisa recente do respeitado instituto YouGov mostra que 60% dos britânicos consideram que o Brexit foi um fracasso, uma mudança significativa em relação ao clima de mobilização e expectativa que marcou o referendo de 2016, mas que acabou sendo decidido por uma pequena margem de 51,89% a 48,11%.
Movimentos nacionalistas
Outra consequência fundamental foi o fortalecimento de movimentos nacionalistas dentro do país.
Como o Brexit desorganizou os alinhamentos tradicionais entre e dentro dos partidos, ele também ajudou a intensificar as tensões internas no Reino Unido, especialmente entre as nações que o compõem: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.
Com o referendo, a questão da identidade local passou a ser o centro de uma boa parte do debate político.
A bandeira com a cruz de São Jorge (da Inglaterra) passou a ser vista com uma frequência inédita. Nas ruas do norte da Inglaterra, ela praticamente substituiu a Union Jack (o estandarte tradicional do Reino Unido) e passou a aparecer muitas vezes acompanhada de slogans supremacistas.
Na Escócia, os movimentos nacionalistas pedem um novo plebiscito para deixar o Reino Unido.
E na Irlanda do Norte as tensões entre as comunidades republicana (que quer a criação de uma só Irlanda, junto com a República da Irlanda) e unionista (que quer a manutenção do país no Reino Unido) voltaram a aflorar depois de mais de duas décadas de paz.
Caso os movimentos políticos não consigam se organizar de uma forma mais eficiente e a economia não volte a crescer beneficiando a todos, é possível vislumbrar até mesmo a dissolução da União, criada com a junção dos então reinos da Inglaterra e da Escócia em 1707.
Neste caso, mais do que levar ao divórcio com a União Europeia, o resultado final do Brexit seria o fim do país como conhecemos hoje.