A escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irã após a morte de seu pai, Ali Khamenei, representa a continuidade da linha radical do regime dos aiatolás e frustra as expectativas de mudança que haviam sido expressas pelo governo dos EUA.
De acordo com a correspondente da CNN Brasil em Washington, Mariana Janjácomo, a nomeação de Mojtaba “caiu como uma bomba” para o governo Trump, que defendia a possibilidade de uma liderança mais moderada que pudesse estabelecer diálogo com os americanos.
“Foi exatamente o contrário. Não é uma surpresa para quem entende sobre Oriente Médio, quem entende sobre o regime dos aiatolás já sabia que essa era a possibilidade maior”, explicou Janjácomo.
O primeiro discurso de Mojtaba Khamenei, que foi lido por um apresentador da TV estatal iraniana, manteve o tom radical característico de seu pai.
No pronunciamento, o novo líder supremo afirmou que manterá o Estreito de Ormuz fechado e continuará atacando outros países da região do Golfo que abrigam bases militares americanas.
Estratégia americana em xeque
A sucessão coloca em questão a estratégia adotada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que chegou a comparar a situação no Irã com a da Venezuela, sugerindo que seria possível substituir facilmente a liderança iraniana por alguém mais favorável aos interesses americanos.
“Isso põe em xeque todos os recursos, toda a incursão dele, toda a lógica de Donald Trump para lançar esses ataques e levanta ainda mais dúvidas sobre o que os Estados Unidos de fato vão ganhar com tudo isso”, destacou a correspondente.
O analista de internacional da CNN Brasil, Lourival Sant’Anna, observou que o Irã está determinado a elevar o custo do conflito para dar uma lição ao mundo.
Segundo ele, diplomatas das monarquias árabes do Golfo que estão em conversas com representantes iranianos relatam que o país “está duríssimo na negociação”, exigindo reparação de guerra e um compromisso de que nunca mais será atacado.
Embora o Irã não tenha condições de vencer militarmente os Estados Unidos e Israel, o país pode causar sérios danos à economia mundial ao restringir o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz.
“O petróleo tem um duplo efeito sobre a economia. De um lado, a restrição de acesso diminui as atividades econômicas, leva à estagnação. De outro, pressiona os preços. Então, você tem um quadro de estagflação”, explicou Sant’Anna, acrescentando que este seria o “terceiro choque mundial em três décadas” após a crise financeira de 2008-2009 e a pandemia.