Anúncio


Já escrevi sobre os nossos desafios sociais – a expectativa de vida dos negros é menor que a de brancos e essa expectativa de vida também tem diferenças regionais, ela é mais acentuada no Norte/Nordeste. Essas diferenças são fruto da distribuição de renda e não da cor da pele. E isso já é bastante conhecido, embora ainda não exista concordância na sociedade brasileira. Também os remédios para mudar esse quadro, como as políticas de distribuição de renda via programas como o bolsa família e o BPC, as políticas de cotas, não são reconhecidas como uma estratégia correta para direcionar políticas públicas. Essa posição é defendida em particular pelos operadores da área de finanças – querem sempre mais e ver uma parte do capital ser desperdiçada com pobres, é inaceitável.

Esses movimentos são vistos como instrumentos que alimentam a inflação e por conseguinte a política de juros altos que, como consequência, desorganizam a economia. Em resumo, a mesma solução de sempre – primeiro temos que fazer o bolo crescer e depois distribuiremos. O que não aconteceu no passado e não acontecerá no futuro. Apesar das políticas distributivas iniciadas nos últimos anos, o Brasil continua sendo um dos campeões da concentração de renda do mundo.

Assim, temos que conseguir enfrentar o desafio da distribuição da riqueza, e os caminhos são em parte esses que estamos utilizando, que certamente diminuem os lucros dos que vivem de juros.

Mas quero agregar a esse desafio o tema da longevidade. Todos queremos viver mais tempo. Hoje, cerca de 15% da população brasileira tem mais de sessenta anos, –  esse número dobrará nos próximos 25 anos. E portanto, se é o que queremos, será um sucesso.<

Só que não: será um desastre que já está acontecendo. Cerca de 20% de nossos idosos, de acordo com estudos da Fiocruz, têm perda da capacidade funcional e de sua autonomia. E não existem políticas públicas que amparem essa população. Estamos vivendo uma condição que, associada à distribuição da riqueza, está gerando uma bomba social.

O geriatra Alexandre Kalache escreveu: o envelhecimento populacional não deve ser uma bomba relógio e sim um teste da nossa inteligência coletiva.

Mas o que será essa inteligência coletiva?

Com certeza são múltiplos os movimentos necessários para conseguir enfrentar a complexidade desse quadro, mas quero destacar dois elementos que considero fundamentais. Estes são dependentes de políticas públicas que podem ser desenvolvidas a tempo de contornar uma parte dos graves problemas determinados pelo envelhecimento. E que deverão ser complementados pelas ações que necessariamente a sociedade terá que realizar na busca da ação coletiva: políticas públicas e postura da sociedade.

O primeiro movimento está dentro do campo da promoção da saúde e é composto por sete pilares, situados dentro do espaço da atenção primária à saúde. Eles partem das equipes envolvidas com este setor. São eles:

  • O conhecimento das ações de promoção da saúde e cujos conhecedores são os profissionais do ramo, que devem transmiti-los aos cidadãos que os procuram e também buscar os cidadãos que vivem no espaço de sua base operacional (sua região de saúde). Ou seja, não se trata mais de fazer o cidadão buscar e sim das equipes de saúde buscarem os cidadãos através de estruturas de saúde mais dinâmicas – nas escolas, nas áreas associativas como clubes, nas igrejas, onde as pessoas se reúnem, para com elas dialogarem sobre as ações de promoção da saúde. O crítico é entender que sobre promoção da saúde sabem as equipes, mas sobre a execução, como veremos a frente, quem sabe é o sujeito cidadão. E por isso o plano terapêutico não é mais do profissional de saúde e sim dos profissionais e do sujeito cidadão/cliente.
  • A alimentação saudável é um importante movimento para melhorar a qualidade de vida das pessoas e a equipe de saúde pode auxiliar os cidadãos a redesenhar o uso dos alimentos mesmo com restrições econômicas. Uma importante ação é apoiar o desenvolvimento de cozinhas comunitárias que servem comunidades organizadas para a alimentação coletiva e para uma vida mais integrada.
  • Realização de exercício físico: este é um desafio importante e que em comunidade será melhor enfrentado. Não são necessários equipamentos, muito pode ser improvisado e o importante é conseguir desenvolver atividades que levem ao movimento físico com alegria e compromisso coletivo.
  • Noção de comportamentos de risco: este é um capítulo mais difícil, – não se trata de proibir e sim de mostrar que fumar ou consumir bebidas alcoólicas são comportamentos de risco e não trazem benefícios, portanto devem ocupar um espaço reservado na vida dos que quiserem continuar realizando esses comportamentos conscientemente.
  • Necessidade de socialização: a solidão dos idosos é um dos componentes que devem ser substituídos por busca de socialização. É importante que as pessoas percebam o risco do isolamento e da solidão que podem levar a quadros de depressão. O idoso tem que ser incorporado na comunidade, não pode ser invisível.
  • Realização de atos de higiene pessoal: aqui é necessário desmistificar comportamentos como o excesso de banhos, o uso de sabões ou a higiene bucal inadequada. Existem muitos mitos e muitos conhecimentos a serem melhor aprendidos.
  • Uso adequado de medicamentos: idosos consomem medicamentos que são necessários para controle da hipertensão, do diabetes, de artrites, entre outros. Precisam ter consciência da necessidade de consumir de maneira adequada e se não têm essa condição devem ser assistidos por um cuidador que será responsável também pela correta ingestão de medicamentos. Devem consumir de maneira correta seus medicamentos e evitar o sobreuso, inclusive de propostas sem base científica, embora possam fazer uso de conhecimentos ancestrais e consumir chás e semelhantes. As boas crenças devem ser estimuladas, assim como as práticas integrativas.

Vejam que esse conjunto de ações são fundamentais para que a promoção da saúde ocorra e será ela junto com o conjunto de ações estruturantes do espaço de viver que poderão dar razão de ser a uma vida longa e melhor.

Além do conjunto de ações aqui chamadas de promoção da saúde, existe um fundamental conjunto de ações a serem desenvolvidas a partir de políticas públicas voltadas para as ações de “cuidar” dos idosos. Uma parte importante dos idosos que conseguirem aplicar no seu viver o conjunto de ações de promoção terão sucesso, mas uma quantidade relevante deles desenvolverão condições que, mais que atenção médica, necessitarão de estruturas da sociedade para lhes garantir acesso a cuidados.

Hoje essa estrutura praticamente inexiste no país, terá que ser criada para suportar o aumento exponencial de idosos. Essas ações não estão no campo da saúde: não são ações de cura e sim de cuidado. São instituições que apoiarão os idosos em seu processo de envelhecimento e de perda da autonomia, como os centros de convivência e até as instituições de cuidados durante uma parte do dia ou de apoio aos idosos em suas residências, em apoio às famílias ou em sua substituição, quando inexistentes.

Qual o tamanho dessa ação? Não sabemos, mas temos que nos preparar para oferecer essas ações para nossos idosos, esse movimento já é necessário hoje e se tornará muito maior no futuro imediato e necessitará da ação do Estado e da inteligência coletiva – é um novo caminho que nunca trilhamos. A sociedade terá que aprender a trilhá-lo e a exigir a ação do estado.



Source link

Últimas Notícias

plugins premium WordPress

MENU

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Os desafios sociodemográficos do Brasil | Colunas | CNN Brasil

Análise: Grandes bancos sobem tom na disputa com criptomoedas

CRB x São Bernardo: horário e onde assistir ao Brasileirão Série B

Vídeo: ponte de R$ 36 milhões desaba e deixa feridos no Acre

Anthropic: IA em breve poderá se aperfeiçoar sem intervenção humana

Veja o calendário de Wimbledon, próximo Grand Slam da temporada

Heny Borel: Promotor detalha bastidores do júri e explica recurso do MP

Crise de custos ameaça entrega de moradias do MCMV no Norte e Nordeste

Governo reforça discurso de cooperação internacional sobre PCC e CV | Blogs | CNN Brasil

Ponte que desabou no Acre já estava interditada; governo apura causa