A defasagem entre os valores repassados pelo governo federal e o custo real da construção civil coloca em risco a entrega de mais de 125 mil unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) nas regiões Norte e Nordeste.
Um estudo detalhado, elaborado pelo FNNIC (Fórum Norte Nordeste da Indústria da Construção) em parceria com a BCB Inteligência em Dados, revela que investimentos superiores a R$ 14,5 bilhões estão sob ameaça direta devido à inviabilidade financeira dos contratos atuais.
A crise é impulsionada por uma inflação nos insumos básicos, que sufoca o orçamento das construtoras e compromete a continuidade das obras. O cenário tornou-se crítico após um choque sistêmico no início de 2026, com reajustes simultâneos em materiais essenciais.
Dados reais de notas fiscais coletados diretamente nos canteiros mostram variações relevantes. O cabo de cobre, por exemplo, subiu 64%, a tela soldada saltou 54,1% e os tubos de PVC aumentaram 33,2%.
Segundo o levantamento, o reajuste de apenas 3,53% aplicado recentemente para grandes municípios do Nordeste é irrisório diante da alta de 14,3% no custo real da região e do salto de quase 36% registrado na Região Norte, onde gargalos logísticos e fretes caros agravam a situação.
O presidente do FNNIC, Marcos Antônio C. Buarque de Holanda, reforça a gravidade do momento e a necessidade de uma intervenção rápida para garantir o futuro das entregas.
“Há uma preocupação extrema e uma necessidade de que se readequem os preços para que as obras que estão em andamento se tornem capazes de cumprir os prazos e não atrapalhem o resultado e a perspectiva de entrega do Minha Casa Minha Vida, como também as futuras contratações”, explica.
Holanda destaca que, apesar dos avanços estratégicos do programa, fatores externos têm pressionado os orçamentos de forma imprevisível. “Acontecem coisas que são inesperadas, como, por exemplo, essa questão da guerra do Irã que aumentou os preços dos combustíveis e evidentemente isso incide toda uma questão financeira nas composições dos preços dos insumos que são utilizados na construção, e isso sem dúvida nenhuma impacta na composição dos preços do Minha Casa Minha Vida para as empresas construtoras”.
Já o diretor da BCB Inteligência em Dados, Bruno Cantalupo, enfatiza que a paralisação do programa teria efeitos devastadores que ultrapassam a questão habitacional, atingindo toda a cadeia produtiva e a economia de centenas de municípios.
“O Minha Casa, Minha Vida FAR vai muito além de um programa habitacional. Nas regiões Norte e Nordeste, ele funciona como um dos principais motores da construção civil voltada à população de baixa renda e exerce papel fundamental na redução do déficit habitacional, que historicamente apresenta elevada concentração nessas regiões”.
O especialista aponta ainda para uma distorção perversa no modelo atual, alertando que cidades que enfrentam maiores desafios operacionais acabam recebendo menos recursos para produzir habitação, o que reduz o interesse por novos investimentos justamente onde a carência é mais severa.
Como solução para evitar o colapso, o estudo propõe ao Ministério das Cidades a adoção imediata do Índice de Reajuste MCMV FAR. Este mecanismo de correção seria composto por 50% do INCC-DI, 30% do CUB regional e 20% do IPCA, garantindo que o valor das moradias acompanhe a realidade do mercado.
O reequilíbrio exigiria um aporte de aproximadamente R$ 2,57 bilhões, mas o retorno social e econômico justificaria o gasto. Conforme detalha o documento técnico, a relação de custo-benefício é clara, pois cada R$ 1,00 aplicado no reequilíbrio preserva cerca de R$ 5,67 de investimento habitacional já mobilizado, assegurando que milhares de famílias recebam as moradias.