O acordo firmado em 4 de fevereiro entre Argentina e Estados Unidos para minerais críticos não é um gesto diplomático protocolar. É um sinal claro de mercado. Washington passou a tratar cadeias minerais como tema de segurança econômica e tenta amarrar parceiros estratégicos antes que gargalos industriais e geopolíticos se tornem estruturais.
Para o Brasil, a consequência é direta: a geologia segue forte, mas o jogo mudou. O ativo hoje não é apenas a reserva no subsolo, e sim a capacidade de entregar projetos financiáveis, com previsibilidade regulatória e alguma etapa de processamento local.
Em terras raras, o país aparece com reservas estimadas em cerca de 21 milhões de toneladas (em equivalente de óxidos), mas ainda não opera uma cadeia contínua de separação e manufatura — justamente onde a China construiu sua vantagem histórica.
A exceção que começa a alterar a percepção do investidor é a Serra Verde, que entrou em produção comercial recentemente e trabalha com uma projeção entre 4,8 mil e 6,5 mil toneladas por ano até o início de 2027, além de ter encurtado acordos ligados à China. É um sinal de que a “opção Brasil” pode, enfim, entrar no radar de EUA, Europa e Japão.
No lítio, o país tem um ativo mais imediato. A rota do espodumênio em Minas Gerais já colocou o Brasil no mapa como fornecedor recorrente. As reservas estimadas em cerca de 590 mil toneladas de Li₂O contido e a produção aproximada de 263 toneladas de concentrado (com teor de ~5,5% a 6,0% de Li₂O) em 2023 sustentam essa leitura.
O problema é outro: com o acordo Argentina–EUA, o capital passa a comparar projetos. Exportar concentrado deixa de ser suficiente. O diferencial passa a ser refino, química e estabilidade institucional.
O grafite é talvez o ativo mais subprecificado do portfólio brasileiro. O país concentra 166,8 milhões de toneladas em reservas, algo próximo de 40% do total mundial, segundo a metodologia adotada por ANM e USGS. Mas o prêmio não está na grafita em si.
Está no ânodo — o grafite esférico purificado. Quem dominar essa etapa vira fornecedor estratégico de baterias. Quem não dominar continua exposto à compressão de margens.
No cobre, metal-infraestrutura da transição energética, o Brasil combina produção relevante — cerca de 384 mil toneladas de cobre contido em 2024 — com uma base exportadora robusta: US$ 5,05 bilhões em vendas externas e saldo de US$ 1,924 bilhão no ano.
As reservas, na casa de 11 milhões de toneladas de cobre contido, dão fôlego de longo prazo. Ainda assim, o salto de valor depende de metalurgia e produtos de maior teor, um movimento intensivo em capital, energia e licença ambiental.
O nióbio segue como contraponto positivo. Com 14,2 milhões de toneladas de Nb₂O₅ contido em reservas e produção próxima de 196 mil toneladas em 2023, o Brasil mostra que sabe capturar valor quando constrói cadeia ao longo do tempo.
É o caso que investidores gostariam de ver replicado — ao menos parcialmente — em outros minerais críticos.
O ponto frágil está onde o país é estruturalmente pequeno. No cobalto, com reservas declaradas abaixo de mil toneladas, não há escala para disputar liderança global. O caminho aqui é nicho: subprodutos, refino ou reciclagem.
No fim das contas, o acordo Argentina–EUA acelera uma mudança que já estava em curso. Minerais críticos deixaram de ser apenas pauta comercial e passaram a influenciar custo de capital, atração de CAPEX e posicionamento geopolítico.
O Brasil tem portfólio e escala geológica. O mercado, agora, vai precificar quem entrega processamento, contratos de longo prazo e previsibilidade — porque, nesta corrida, a vantagem não está apenas no subsolo.