Partes de associações norte-americanas envolvidas nas discussões comerciais com o Brasil demonstram disposição para manter canais diplomáticos abertos, mas adotam postura cautelosa diante do aumento das tensões entre os dois países.
A avaliação é de representantes do setor cafeeiro que acompanham de perto as investigações comerciais conduzidas pelos Estados Unidos e as negociações em curso.
Segundo relatos de interlocutores brasileiros e norte-americanos, o atual processo conduzido pelas autoridades americanas ainda está em fase preliminar e abre espaço para audiências públicas, envio de documentos e novas manifestações das partes interessadas.
Nesse contexto, a leitura mais otimista é que Washington estaria sinalizando interesse em negociar antes de tomar medidas definitivas.
“Se eles estão chamando para negociar, precisamos negociar”, resume uma fonte do setor que preferiu anonimato, mas mantém contato com representantes americanos.
O principal temor do segmento é garantir a permanência do café verde brasileiro na lista de exceções tarifárias e ampliar essa proteção para o café solúvel, produto que ainda não foi contemplado em nenhuma das listas divulgadas até agora.
O tema preocupa especialmente porque, pelas propostas em discussão, o café solúvel poderia enfrentar uma combinação de tarifas que elevaria significativamente o custo de entrada no mercado americano.
Enquanto isso, concorrentes como o México contam com acordos bilaterais que garantem acesso ao mercado dos Estados Unidos sem incidência tarifária para o produto.
A avaliação entre lideranças do setor é que o Brasil precisa atuar em duas frentes simultaneamente: defender interesses nas investigações em andamento e acelerar as negociações diplomáticas para a construção de um acordo bilateral que reduza riscos futuros para as exportações.
Fontes próximas às negociações afirmam que representantes americanos favoráveis ao diálogo têm evitado declarações públicas mais contundentes.
O movimento seria reflexo do ambiente político sensível nos Estados Unidos, marcado por disputas internas sobre comércio exterior e segurança econômica.
“Existe uma visão favorável à negociação, mas há muito cuidado neste momento”, relata um interlocutor que acompanha as conversas.
Além da investigação comercial já conhecida, o setor monitora com atenção uma segunda apuração conduzida sob a Seção 301 da legislação americana.
Segundo representante ouvido reservadamente, os questionamentos americanos envolvem a origem de insumos e bens adquiridos pelo Brasil de países como China, Rússia e Irã, incluindo máquinas, combustíveis e fertilizantes, extrapolando aspectos estritamente comerciais e refletem disputas geopolíticas mais amplas.
O argumento que se sobressai, então, é político.
Outro ponto de atenção é a denúncia apresentada em 2025 à agência de alfândega e proteção de fronteiras dos Estados Unidos (CBP), envolvendo alegações relacionadas a trabalho forçado.
Embora o caso não tenha avançado até o momento, integrantes do setor alertam que um eventual agravamento das relações bilaterais poderia aumentar o risco de novas medidas restritivas contra produtos brasileiros, como o café verde – que está isento até agora.
Por isso, a percepção predominante entre exportadores e negociadores é que o fortalecimento do diálogo diplomático entre Brasília e Washington será determinante para evitar impactos sobre as exportações brasileiras, incluindo o café em grão, principal produto embarcado pelo Brasil ao mercado americano.