Quase uma semana após sua nomeação como líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei continua nos bastidores. Os iranianos tiveram o primeiro contato com suas ideias na quinta-feira (12), quando uma longa declaração atribuída a ele foi lida na televisão estatal.

No dia seguinte, sua primeira sexta-feira como líder coincidiu com o Dia de Al Quds – ocasiões em que o líder supremo normalmente se apresenta em público. Mas Mojtaba não apareceu. Seis dias após sua nomeação, o povo iraniano ainda não o viu nem ouviu sua voz.

Uma fonte com conhecimento da situação disse à CNN que Mojtaba sofreu uma fratura no pé, um hematoma no olho esquerdo e pequenos cortes no rosto no primeiro dia da campanha de bombardeios dos EUA e de Israel, quase duas semanas atrás – a mesma onda de ataques que matou seu pai e altos comandantes militares iranianos.

O filho do presidente iraniano Masoud Pezeshkian, que é assessor do governo, afirmou mais tarde que Mojtaba estava ferido, mas em local seguro.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse que Mojtaba estaria “provavelmente desfigurado”, sem apresentar evidências, enquanto Israel indicou que qualquer novo líder supremo seria alvo.

Apesar de sua ausência, milhares de fiéis foram às ruas para declarar lealdade, em um movimento que se tornou um grito de apoio, enquanto o regime busca consolidar apoio por meio de manifestações, especialmente nos últimos dias do Ramadã.

A ausência contínua de Mojtaba levanta uma questão maior: quem governa o país em tempo de guerra?

Ao longo de quase quatro décadas, Mojtaba Khamenei atuou principalmente nos bastidores do governo de seu pai, exercendo influência, mas raramente aparecendo em público.

Agora, ao assumir o cargo mais poderoso do Irã em meio a um conflito militar com EUA e Israel, sua invisibilidade reforça a ideia de que instituições e órgãos de segurança no país podem ter mais peso do que a presença do líder supremo.

Um líder nos bastidores

Pregadores ligados ao Estado têm incentivado os fiéis a declarar lealdade, com o influente clérigo Mahmoud Karimi chegando a afirmar que “o fato de ninguém jamais tê-lo visto diz muito sobre seu caráter”, transformando o mistério de Khamenei em virtude.

Entre críticos do regime, a falta de visibilidade do novo líder tem gerado críticas. Imagens manipuladas dele como um “boneco de papel” no poder circulam nas redes sociais, assim como memes zombando do mistério em torno de sua localização.

Com tão pouco material verificado, veículos oficiais e canais estatais recorreram a vídeos e imagens geradas por IA para reforçar apoio, incluindo cenas fictícias ao lado do pai ou de figuras históricas do regime.

Vídeos mostram o novo líder discursando para grandes multidões e ao lado de seu pai em momentos históricos – cenas que, na verdade, nunca ocorreram. Outras imagens geradas por IA mostram o Khamenei mais velho passando o manto da revolução para o filho, ou Mojtaba Khamenei abraçando o general iraniano Qasem Soleimani, morto em ataques recentes.

“Estão chamando ele de líder supremo de IA”, disse ironicamente um homem em Teerã.

Uma cultura política moldada por mito e história

Mojtaba passou anos nos bastidores do vasto aparato político e de segurança do Irã, raramente visto ou ouvido durante os quase 40 anos de governo de seu pai.

Sua ascensão repentina em tempo de guerra, combinada à incerteza sobre seu paradeiro, remete a imagens profundamente enraizadas na mitologia do Irã e na teologia xiita.

O historiador Arash Azizi afirma que o “martírio icônico” do falecido Khamenei forneceu imagens simbólicas úteis ao regime.

“Eles naturalmente vão tentar usar os mesmos temas em torno de Mojtaba, cujo status como filho de um ‘imã martirizado’ que também foi ferido se assemelha ao de santos xiitas da Batalha de Karbala”, disse Azizi, que é professor e historiador na Universidade Yale.

A cultura política do Irã também foi moldada por décadas de guerra e crise. Apenas um ano após a fundação da República Islâmica em 1979, o líder iraquiano Saddam Hussein invadiu o país, desencadeando um conflito brutal de oito anos que matou centenas de milhares de pessoas e moldou a política iraniana.

Até agora, leais ao regime demonstram pouca preocupação com a ausência do novo líder, parecendo dispostos a esperar por sua aparição eventual.

Essa experiência condicionou muitos apoiadores a compreender as limitações impostas em tempos de guerra.

O sistema por trás do trono

“O regime pode se sustentar temporariamente sem aparições públicas”, diz Sanam Vakil, diretora do programa Oriente Médio e Norte da África no Chatham House, em Londres.

“A falta de visibilidade não compromete necessariamente a legitimidade no curto prazo, especialmente se as instituições-chave continuarem funcionando e as decisões parecerem coordenadas”, acrescenta ela.

Analistas afirmam que o mais importante agora em Teerã não é a visibilidade do líder supremo, mas a coesão das instituições subordinadas.

Órgãos de segurança poderosos, como o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), provavelmente conduzem a estratégia de guerra, independentemente da presença de Mojtaba.

Sua nomeação ao topo da hierarquia política pode ser suficiente para dar legitimidade política às forças militares, permitindo que o IRGC execute os planos da chamada “Guerra do Ramadã”.

“Esses elementos provavelmente detêm o poder real no Irã, não Mojtaba, mesmo que ele finalmente apareça em público e se recupere de seus ferimentos”, afirma Azizi.

Por enquanto, não há pressa em exibir o novo líder diante das câmeras. Ele já cumpre o papel que o regime exige. O que resta saber é como será sua posição após o fim da guerra.

“Após o conflito – ou em circunstâncias mais desafiadoras – a elite política, não apenas o público, precisará de sinais claros de que ele consegue exercer autoridade”, conclui Vakil.

Por enquanto, seu paradeiro continua secreto. E poucos de seus seguidores questionam o motivo. O novo líder tem um alvo nas costas.



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