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Brasil e Índia assinaram neste sábado (21) um memorando de entendimento para cooperar em terras raras e minerais críticos, um tema que migrou da diplomacia para a conta de risco das indústrias.

Segundo a Declaração Conjunta divulgada pelo Itamaraty, o Memorando de Entendimento assinado entre os dois países estabelece a intenção de cooperar no setor de terras raras e minerais críticos ao longo da cadeia de valor, mencionando expressamente etapas como exploração, mineração, processamento, reciclagem e refino.

O texto público não detalha metas operacionais, cronogramas ou obrigações vinculantes, mas enquadra o instrumento como parte do esforço bilateral para fortalecer cadeias de suprimento consideradas resilientes e estratégicas.

O desenho do Memorando de Entendimento, por si só, não cria produção nem muda a curva de oferta. Mas ele altera o eixo das conversas: sai a lógica de commodity e entra a de cadeia estratégica.

Para o Brasil, a oportunidade é capturar parte do “prêmio da cadeia” ao atrair tecnologia e investimentos para separar, purificar e refinar materiais que hoje frequentemente deixam o país como concentrado. Para a Índia, o foco é reduzir vulnerabilidades em insumos que travam desde a indústria de aço até a fabricação de ímãs permanentes, peça-chave em veículos elétricos, eólica e aplicações de defesa.

O timing não é casual. Dois dias antes da assinatura, segundo a Reuters, o governo indiano disse mirar o início da produção doméstica de ímãs permanentes de terras raras até o fim de 2026, apoiado por um programa de 73 bilhões de rúpias (cerca de US$ 802 milhões) e pela instalação de plantas de processamento em diferentes Estados.

O recado ao mercado é direto: Nova Délhi quer sair do “importador cativo” para o “coprodutor” de um insumo industrial sensível, num ambiente em que restrições de exportação e choques geopolíticos viram inflação de custos.

Esse pano de fundo explica por que o acordo foi apresentado como passo para cadeias de suprimento resilientes. Em fala à imprensa, Narendra Modi ligou o pacto à ideia de segurança econômica. Ainda segundo a Reuters, o governo indiano quer elevar o comércio bilateral para mais de US$ 20 bilhões em cinco anos, sinalizando que minerais críticos entram no pacote mais amplo de tecnologia, investimento e reindustrialização.

O teste real, agora, está na execução. A agenda “do minério ao refino” exige CAPEX elevado, domínio de rotas químicas complexas e uma regulação capaz de dar previsibilidade ao licenciamento e ao controle de rejeitos. Sem isso, o Memorando corre o risco de ficar no plano declaratório. Com isso, pode se tornar um atalho para joint ventures, transferência tecnológica e uma carteira de projetos que conecte depósitos brasileiros à capacidade industrial, com rastreabilidade e padrões ESG compatíveis com o escrutínio de clientes globais.

Para investidores, o acordo funciona como sinal, não como valuation imediato. Ele sugere que terras raras podem deixar de ser apenas tese de “potencial geológico” e passar a ser tese de “infraestrutura industrial”, na qual o custo de capital depende menos do preço spot e mais da estabilidade regulatória, do risco de execução e do acesso à tecnologia. É aí que se forma o prêmio — ou o desconto — na cadeia crítica.



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